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Modus Operandi

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pica-pau fica nesse trabalho
de martelar o tronco
em busca de insetos
que possa comer demônio fica nesse trabalho
de martelar o crânio
em busca de miolos
que possa comer

Ouvir

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Sou das criaturas que gostam de ouvir as conversas dos outros! Fico nisso um bom tempo. Em filas de banco, de preferência, com sombra e ar condicionado, portas de vidros e seguranças. Para muitos, as filas de banco são as salas de suas casas. Conversam com total desenvoltura, como se recebessem visitas distantes. Sem as conversas alheias, as filas de banco seriam um calvário. 

Gosto de ouvir as conversas: direciono a orelha como quem procura sintonizar uma emissora de rádio, inclino o pescoço discretamente e ouço as fagulhas e zumbidos.

Nunca julguei que isto fosse um defeito de caráter, uma mácula de personalidade, um borrão a tirar-me a nitidez.

Acontece que sou discreto e a discrição é quase inocência. Aliás, se levada muito a sério, a discrição é a prova da inocência.

Lembra do sofá riscado, o jarro quebrado e a vidraça estraçalhada? "Quem fez tamanha patifaria?" Se ninguém viu, para que haveríamos de nos entregar, produzir provas contra si, sofrer desmoralização e lev…

Andar

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Fui das crianças que mais levaram quedas na vida. Uma queda para cada dia. Uma queda para cada hora. 

Não lembro ao certo a idade em que comecei a andar. Se teria acontecido antes de um ano ou depois. Suponho que depois. Bem depois. Ninguém nunca tratou deste assunto comigo. O que só aumenta as minhas suspeitas de um andar tardio e demente. 
Fui um menino de joelhos dilacerados. A conta disso, vivi acuado, aos cantos, a sombras dos outros meninos. Impossível um jogo de futebol em que não fosse o último na escalação. Por piedade e misericórdia. 
― O bicho não sabe nem andar.  ― Não sabe nem respirar. 
Tinha habilidades em fazer de conta que não ouvia. No jogo, deus iria me iluminar e todos veriam minhas proezas. 
Deus era bem distraído comigo. Haveria mais coisas a fazer no mundo que ajustar-me as pernas. 
Sempre me vi de calção acima dos joelhos para as feridas secarem. 
Em datas festivas eu usava calças que logo manchavam de sangue e pus dos joelhos carcomidos. Uma imundície. Um const…
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Perdida
a bala
atravessa a rua o semáforo a janela a cortina a cabeça o sonho
o recém-nascido


(Imagem: creative commons)
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O amor bombardeado. O amor entre escombros. O amor enxotado de seu país. Ele refugiado e roído. O amor aqui na esquina, ele amargo e turvo. Amor sem pieguice. Amor com seus frutos e entressafras. Este é o tema de “Ruinosas rumimancias”, livro de poemas de Philippe Wollney. 
: nas ruínas de uruk não há nenhuma menção sobre nós :
não há nossas iniciais gravadas em cunha nas paredes do templo à irana

***

não se engane

eu quero é minha boca
em sua boca o contato direto
do afeto do verso que repara
o toque que inflama
eu quero encurtar distâncias

***

meu coração é como um jambo maduro que acabou de cair 

De viver

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vida
sem avidez
é osso poroso
farelado
puído


(Imagem: Pinterest)

Paulo Gervais, Poeta.

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Paulo Gervais havia publicado “Guerra Florida” no ano 2001. Um livro excepcional, já em sua estreia. Dezesseis anos depois ele nos brinda com “Paulatim”, uma joia de esmero e apuro de linguagem!

a árvore não é, senão
um desvio do grão:
que explica e ramifica
e complica a vida (...) 


Paulatim é uma leitura de busca. Uma busca, que se bem cuidada, nos revelará um Poeta exato. Enxuto de palavras e derramado de imagens. O que, ao meu ver, traz força a sua poesia.

a coisa se veste
de palavras:
dela se despe,
sem ela nada

amiúde tece
para si
uma malha, tibí;

a gente sabe
a coisa, de ouvir
ecoar a palavra,

ver a imagem
esculpida na página:
capaz de fala,

enganar pigmaleão
sua obra magma:
que não fez a mão

sua, e valha
outro grão, a palha. 


Paula Gervais nos traz versos de labuta, apuro, esmero. Tudo isso para resgatar o seu passado mítico: seus avós e as demais gentes que povoaram o lúdico de sua meninice. Paulatim é um livro de suas origens, seu germinar e florir.

ter esses sinais
cortados nos dedos
de mim faz
outro,…