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Héroi

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Herói só morre mesmo com a última pedrada. O último tiro!
Fiquei com este pensamento na cabeça, indo e vindo: ser um herói. Ser imorrível. Nas conversas em família citariam meu nome. “Um orgulho... De pequeno já sabíamos de sua grandeza... Um iluminado...”
Tive vontade de servir ao exército. Ser um soldado brasileiro condecorado com medalhas por bravura. Usaria a farda do Schwarzenegger, faca de sabre ― para abrir alguma lata de sopa de Andy Warhol ―, coturno com sola de pneu, metralhadora e cinturão de cartucheira.  
Tive disposição para ir a guerra e só temia a chuva.
Supus que a maior tristeza de uma guerra era a chuva. O Chão ensopado, lamacento, o coturno criando frieiras e bolhas nos pés. Na certa os coturnos afundariam e um inimigo atiraria pelas costas. 
Alguém perguntou o que iria fazer no meio de uma guerra? ―Mataria alguém? ―Como assim? ―Você puxaria o gatilho, mataria um cristão?
Numa situação de perigo eu não poderia titubear: ou puxava o gatilho ou seria morto com um tiro nas…
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Há quem viva a dissecar sapos para saber o que estas criaturas carregam dentro. O dentro ingerido e o dentro com ele nascido. Não basta ver por fora, em camada de fino couro e verniz. É preciso ver profundo, mergulhar no recôndito cu do Judas. Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa. Não pense, leitor amigo, que seja uma atividade de quem não tem o que fazer. Pelo contrário, esteja a ver! Quem indaga o que dentro carrega um sapo alarga a humanidade. Engrandece a raça. Opulenta o viver. Pode haver, confesso, um pouco de exagero ao que digo. Escrevo sem régua e sem receios estatísticos. O conselho é que não me leves a sério. Aqui eu zombo e rio. Rir é a minha vingança contra a morte! 
Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa: dissecar sapos. O primeiro ser é Cientista, que no uso de um estilete, extirpa o sapo, corta-lhe os alvéolos, a traqueia e faz pequenas incisões nos pulmões, se calhar uma mudança de sexo, uma lipo. Tudo a saber se a criatura mudara de com…
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Poetas fumaçam na cabeça
pensando as coisas que imaginam alumbrar

assim:
de um varal virar uma cobra e comer a roupa estendida

assim-assim:
um varal virar uma cobra e comer a roupa e virar aranha
e fazer uma teia do restinho da roupa que sair defecada de seu fundilho

o despoeta nem pensa
já diz:
mas a teia não sai do fundilho da aranha
sai das fúsulas fiandeiras do abdômen

o despoeta nem fede nem cheira
(Imagem: Pinterest)
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Nelson Rodrigues sobe do túmulo e me traz uma verdade: "Ninguém faz nada. O mundo é apenas plateia". Agora pensemos nós, eu e você. Eu, você e o padeiro. Eu, você, o padeiro, o advogado e o rapaz do estacionamento, pensemos: há maior plateia do que o Brasil? 

Louvo aqui um desses políticos da sujeirada -mas tem que ser da sujeirada mesmo, um político jurássico -, que fosse capaz de uma grandeza e metesse uma bala na cachola como ato de renúncia. 

Isso. Um suicídio! Um estrondoso suicídio para a maior plateia do planeta. Suponho que hoje estou sendo vorazmente radical. 

Ou seria vorazmente ingênuo? 

Fome

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Educou toda a fome para o almoço. Criou a fome entre as entranhas, gerou, pariu. Não deu de beber e nem deu de comer. Nem o pãozinho do café, a tapioca com queixo, o próprio café adoçado, fumaçando. ― A fumaça era aquela serpentinha rebolando. Ela soprava e a fumaça dissipava. Depois vinha a serpentinha rebolando. ― Nem ao meio da manhã, uma bolacha Maria, uma fruta. Uma bananinha amassada com aveia. Quis comer tudo. Quis e teve raiva de querer. A raiva sobrepondo a fome. No almoço Ela se vingaria. Daria a carga. Só verdura. No almoço Ela só comeria verdura e água. Queria emagrecer. Palito. Palitinho. Alface e vinagre e água. Havia comido terra quando era pequena. Comido terra e chupado bandinhas de tijolos. Pois era isso: alface, vinagre e água. Viveria? Chegaria até o fim do ano nesse confinamento? Estou transbordando. Aqui de lado eu transbordo. Esses pneuzinhos. Ela dizia. Ela dizia e segurava os pneus. Palito. Palitinho. O garçom chegou e foi pondo o almoço. Ela olhando as unhas …

Macacos

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"Nossos avós eram macacos! Viemos todos de uma floresta de macacos. Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens. No futuro seremos robôs de carne e osso". 
A professora parou de falar e olhou a turma. Ar superior. Silêncio na sala. Em seguida bateu as mãos limpando a crosta de giz. Subiu uma nuvem. "Sou uma macaca. Somos todos macacos." Teria ela percebido a nuvem? Havia respirado o pó de giz? “Professores recebem pó de giz no salário”. Aos sessenta iriam todos para o balão de oxigênio. O bom Deus que me defendesse dessa profissão! Queimei a língua. Conforta saber que minha geração começou a ensinar com o lápis pilot. Adeus pó de giz!

“Somos todos macacos.” A ideia de vir do macaco alegrava-me mais do que vir do borro e de uma costela. Deus era um Mestre Vitalino de mão cheia, mas eu queria ser fruto da mutação do macaco. Hoje caiu por terra a teoria de que teríamos avós macacos. Caiu por terra, mas paciência, apeguei-me a ela. Tomei-a de esti…

Modus Operandi

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pica-pau fica nesse trabalho
de martelar o tronco
em busca de insetos
que possa comer demônio fica nesse trabalho
de martelar o crânio
em busca de miolos
que possa comer