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Alheio

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Um dia
caiu-me da cara um olho
que quase pisei

comoção de todos por querer socorrer:
um que arrancasse a terra
um que pusesse o lado bem correto
um que afastasse o povo
e um pombo vindo

(Imagem: Pinterest)

Credo

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anciã pegou toco de vela rezou alto a ver se batia no ouvido do santo
― uns que sendo surdos, só apelando
a chama tremelicava de rajadas cuspidinhas e bafejos era a ladainha as incelenças novenas
quando a ver já ia bem amanhecendo até que a reza fez destino
aí a pouco foi nascendo um dente atrás do outro
quem visse diria que tinha botado chapa
anciã ficou a ser besta só rindo ao tudo
dentando o vento
(Imagem: Pinterest)
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Tive pena daquele homem! Pudesse lhe devolveria a juventude. Esticaria as rugas fundas e ensaboaria as manchas na pele. O tempo nos desgasta na cara, esteja a ver! É na cara que sentimos a ferrugem se alojando, levantando fervura, borbulhando. É na cara que o tempo deixa a sua pisada mais funda.

Tive pena daquele homem! Havia envelhecido vinte anos em cinco, disse, em tom lamentoso e arrastado.

“Feliz daquele que chegar a velhice, muitos irão ficar pelo caminho.” Cresci ouvindo minha avó Leuza dizer esta frase. Sempre achei uma frase superior. Um troféu a velhice.

O que apunhalava o coração era a tristeza daquele homem do Brasil. Trabalhador, pouco letrado e muito endividado. Um brasileiro que não assistia telejornais e nem lia romances. Teria envelhecido tanto as custas das dívidas? Amanhecer e adormecer pensando em dívidas. O leitor já não teria perdido um fio de cabelo ou criado uma ruga por uma conta atrasada? Acaso nunca inventasse uma história para se livrar de um cobrador?

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Urubus e Formigas

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O urubu, estando na atmosfera, estica as asas, displicentemente como a se espreguiçar de um sono enfadonhoso, e fica planando a fazer círculos e economizando seu combustível. É uma asa delta perfeita se se ver de baixo pra cima. Só desce da atmosfera quando a farejar alguma carniça supurada.
O amigo leitor já viu um urubu bicando carniça? Se o leitor já viu, sabe então o que é a visão dos infernos todos. Repara cá: os olhos do urubu acendem duas chamas, o bico do urubu vira uma britadeira perfurando ossos e tutanos, as asas do urubu batem com toda força, levantando poeira nos olhos de alguma criatura que queira dividir o apurado e espalhando o cheiro de podre de alto a baixo do mundo.
O urubu é vivente engenhoso, astuto e esbelto. Sabendo-se inferior a força de um cão, a força de tigre ou a força de urso, e, assim se sabendo, bate as asas a criar um campo de forças. X-men não teria tamanhos poderes.

Agora vejamos as formigas. O espetáculo que é as ver carregar palitos de fósforos e pi…

Elefante

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Sempre gostei de elefantes. Aquele tamanhão e peso em preencher os olhos. O peso de montanha e a bondade de freira. Bondade ou mansidão. O olhar de boi, miúdo, brilhoso e triste. De tristeza ou mansidão.
Alguém disse que os elefantes eram criaturas sorumbáticas, cometendo até suicídio. Vejam isso: suicídio! Que tanta tristeza carrega um elefante? Como que um elefante comete suicídio? Quase perguntei. Preferi imaginar e ficar com a poesia suicida. Venho criando essa arte: a de não perguntar e preencher o não respondido.

―Eu, se fosse um elefante, me mataria!
―Por que isso?
―Por todo peso que teria de carregar infinitamente.

Refleti: o tanto de peso que deve ser carregar a si próprio.

Mas vejamos o tanto de tristeza de um elefante. Vejamos a baleia, por exemplo. A baleia não tem o problema de carregar o seu peso, uma vez que desliza, escorrega nos oceanos, seu tobogã. No princípio a baleia era um peixe igual aos outros: pequeno, escamoso e cheio daquele tic de ficar abrindo e fechando a …

(A)deus Marcus Accioly

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Morreu o Poeta épico, Marcus Accioly. Em 2002 tomei contato com a sua obra, quando li 'Nordestinados, livro que havia me impressionado muito. Li e reli umas tantas vezes. Na contracapa havia alguns elogios de Drummond e João Cabral. Quem era esse Marcus Accioly? Alguns anos depois tive a chance de conhecê-lo e, atrevidamente, mostrar os poemas do meu primeiro livro, 'A morte' (que só seria publicado em 2008).
Tive medo do que viria. Eu estava diante de um dos maiores poetas vivos do Brasil, e ele estava lendo meus poemas, escritos ainda nos tempos de faculdade, aos vinte e poucos anos. Eu ia criando desculpas, caso o Poeta não gostasse dos poemas do jovem petulante: “são só rascunhos, são só ideias, são nada com nadas.”
Estava diante de um ídolo. Eu era Davi e ele o Golias. Mas, era ele quem poderia me atirar a pedra, derrubar-me. Que ideia teria sido aquela minha de mostrar meus poemas de puberdade e espinhas? O Poeta tirou os óculos, franziu a testa, me fez umas três perg…

Héroi

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Herói só morre mesmo com a última pedrada. O último tiro!
Fiquei com este pensamento na cabeça, indo e vindo: ser um herói. Ser imorrível. Nas conversas em família citariam meu nome. “Um orgulho... De pequeno já sabíamos de sua grandeza... Um iluminado...”
Tive vontade de servir ao exército. Ser um soldado brasileiro condecorado com medalhas por bravura. Usaria a farda do Schwarzenegger, faca de sabre ― para abrir alguma lata de sopa de Andy Warhol ―, coturno com sola de pneu, metralhadora e cinturão de cartucheira.  
Tive disposição para ir a guerra e só temia a chuva.
Supus que a maior tristeza de uma guerra era a chuva. O Chão ensopado, lamacento, o coturno criando frieiras e bolhas nos pés. Na certa os coturnos afundariam e um inimigo atiraria pelas costas. 
Alguém perguntou o que iria fazer no meio de uma guerra? ―Mataria alguém? ―Como assim? ―Você puxaria o gatilho, mataria um cristão?
Numa situação de perigo eu não poderia titubear: ou puxava o gatilho ou seria morto com um tiro nas…