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Paulo Gervais, Poeta.

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Paulo Gervais havia publicado “Guerra Florida” no ano 2000. Um livro excepcional, já em sua estreia. Dezessete anos depois ele nos brinda com “Paulatim”, uma joia de esmero e apuro de linguagem!

a árvore não é, senão
um desvio do grão:
que explica e ramifica
e complica a vida (...) 


Paulatim é uma leitura de busca. Uma busca, que se bem cuidada, nos revelará um Poeta exato. Enxuto de palavras e derramado de imagens. O que, ao meu ver, traz força a sua poesia.

a coisa se veste
de palavras:
dela se despe,
sem ela nada

amiúde tece
para si
uma malha, tibí;

a gente sabe
a coisa, de ouvir
ecoar a palavra,

ver a imagem
esculpida na página:
capaz de fala,

enganar pigmaleão
sua obra magma:
que não fez a mão

sua, e valha
outro grão, a palha. 


Paula Gervais nos traz versos de labuta, apuro, esmero. Tudo isso para resgatar o seu passado mítico: seus avós e as demais gentes que povoaram o lúdico de sua meninice. Paulatim é um livro de suas origens, seu germinar e florir.

ter esses sinais
cortados nos dedos
de mim faz
outro,…

Viva

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Viva-se
não morra-se
tão fácil


(Imagem: Pinterest)

O bigode de Dali

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Todo gênio que se preze, é louco! Se não for assim, estará ainda no rascunho. Existem os gênios e existem os intelectuais. São duas criaturas distintas. O Gênio cria luz! O intelectual acende a luz. Um faz! O outro explica o que foi feito. Um sopra! O outro cata-vento.
Salvador Dalí, um gênio total, teve seu corpo exumado, recentemente. Abriram sua múmia e tiraram dentes, unhas e cabelos para exames de paternidade. E, olha só, o excêntrico bigode continua vivo, ereto e em horário de 10 pras 10. Surreal! Não há Salvador Dalí sem o bigode. O bigode era as suas antenas de captar o outro lado do mundo.
Por que haveríamos de esperar normalidade, daquele que em vida só nos deu loucura? Por que em morte não poderia fazer o mesmo? Untou o bigode em banha de porco e morreu.

Antes de morrer teria dito para não o acordar. Imitemos!
Dalí, quando criança, queria ser cozinheira. Não era cozinheiro. Era cozinheira, igual sua mãe e sua avó. Suas irmãs e primas. Já era surreal ou não fazia juízo de gêner…

Ruindade

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Não falta neste mundo é gente ruim. Das de ter dejetos no sangue e chumbo na alma. As de juntar lodo e ferrugem na saliva. Gente de sangue límpido e alma leve de fumaça, estão rareando. Estão elas a morrer de última espécie. E era tão boa alma minha Avó. Falava com animais, com estranhos, com as paredes e com Deus. Com Deus a conversa era maior. Eu tinha ciúmes de Deus que tiravam minha Avó pras conversas mais intermináveis. Pei pei pei, pei pei pei. Era minha Avó papeando com Deus. Uma intimidade de pareceiros. Minha Avó virou uma santa! A primeira santa gorda, brasileira e octogenária. Pregava bondade e mansidão! Acolhia todos os animais que lhe colocassem na porta. Famintos, remelentos, desamparados. A boa velha os cuidava igual a filhos. Mas você procure. Você fuce o que for de monturo e verá as demais gentes ruins existindo. Saudavelmente ruins. Rosadas. Pançudas. Todas iguais a você e a mim. Todas iguais e normais na aparência, mas com dejetos no sangue e chumbo na alma. Aí a criatu…

Revoada

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As mãos que dão tchaus
são pássaros que erguem voos


(Imagem: Pinterest)

Diremos

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Até o fim da vida
diremos ainda
um bilhão de palavras
que dirão nada
do que queremos dizer

(Foto: José C. Alves)

Suspiros

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Vi os três últimos suspiros de meu Avô. Um longo, movendo todo o corpo para frente e contorcendo os dedos engravetados. Depois veio um suspiro calmo e curto. Uma brisa. O terceiro suspiro suponho que só eu tenha visto. O terceiro suspiro foi de Avô para Neto. Nossa íntima despedida. Passa-me a ideia de levar adiante um livro sobre a morte de meu Avô José. Nunca me recuperei desta morte. Nem irei. Nem quero. É a minha morte de estimação. Plantada. Enraizada. O livro tem a ver com o momento que desceram o caixão de meu Avô ao fundo da cova. Homens que nunca vi, puseram cordas carcomidas por baixo do caixão, suspenderam-no para ir arriando aos poucos. Puseram meu Avô num buraco fundo, escuro e frio.  Tive raiva da terra que lhes jogavam em cima. Em poucos segundos a terra formava uma montanha. Soterraram-no. Um dia antes ele respirava, existia sobre a cama, articula gestos, arrastava a língua na boca pesada, pedia café e bolachas. ―Coma, Vô. Fique forte! ―Estou indo. Fique forte! Só me dei co…