Vão matar o nosso Lula


“Vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha.” Não sei exatamente quem foi que disse ou talvez ninguém tenha dito. Posso ter lido em algum jornal, pode ser engano, trolagem. “O nosso Lula será assassinado.” Alguma mão oculta colocará chumbinho na sua comida, estricnina em seu café. Um fio desencapado enrolará no seu pescoço... Salvem o nosso Lula, nosso Lulinha. O Brasil é um país de poucos assassinatos cinematográficos. Repito, assassinatos cinematográficos. Aqui não se mata nenhum figurão, um político, um ator. Neste país quem morre de tiro são os policias, os ladrões de bermuda nas canelas e o homem de bem que saiu do mercado feliz da vida por comprar um quilo de carne de sol. Este levara uma bala perdida. Figurão só morre nos EUA, os Kenedys e tal. Mas a frase fica no ar, vão matar o nosso Lula, nosso Lulinha. Uma comoção nacional e planetária. Dirá alguém, ressentido, que o nosso Lulinha já estaria morto, só faltando apodrecer. Dirá, um apaixonado, que nosso Lulinha ressuscitará ou no corpo ou nas urnas.

Gravar na horizontal


Fiquei olhando a moça gravar o vídeo na horizontal. Uma amiga segurava o smartphone e mordia chiclete. Quando eu disser três... A moça começou usar os quinze segundo. Meu nome é fulana de tal, sou de Garanhuns, Pernambuco, e o Brasil que eu quero... Aí ela esqueceu o Brasil que queria. Os cabelos ventavam na cara, desconcentrando. Ela puxou um tufo até a orelha e se concentrou. Quando eu disser três... Dessa vez ela acertou tudo, falou dos jovens que não tinham oportunidade de emprego e que jamais teriam experiência pois logicamente não tinha emprego, falou dos buracos na rua e terminou pedindo o fim da corrupção. Corrupção não poderia faltar, é nosso mantra. Depois as duas moças assistiram ao vídeo. Fizeram conchas com as mãos para enxergar melhor. Houve uma insegurança se o país que elas queriam era aquele mesmo. E as duas ficaram decidindo que país iria passar no JN.  

Michelzinho


Michelzinho vai pra escola. O carro oficial da Republica Federativa do Brasil para em frente ao portão. Michelzinho deixa um naco de catota no banco de couro e desce com a linda Marcela, sua mãezinha. E acontece àquela cena de Hollywood, Marcela ajoelha e beija a testa de Michelzinho. Os coleguinhas acham a mãe do Michelzinho a cara da Dorothy do mágico de Oz. Um coleguinha, vermelho de indignação nacionalista, dirá que o pai do Michelzinho é o senhor das trevas, outro coleguinha, mais didático e assanhadinho, dirá, é gata e pode até parecer com a Dorothy do mágico de Oz, mas casou com o conde Drácula.

Clone


Fico esperando a bomba estourar. Mais dias, menos dias, alguém virá a público, dirá, senhores e senhoras do mundo, a boa nova é que já temos um clone humano, trata-se de fulano de tal...  Um dia a bomba explode, esperemos. Eu mesmo, se fosse um cientista, um Nicolelis da vida,  já teria feito um clone a minha imagem e semelhança. Um orgulho de pai em vê-lo crescer. Primeiros passinhos para um homem, grandes passinhos para a humanidade. Seria o meu Adão domesticado e, já sabemos o script, logo viria a sua Eva e, depois, um Ivo para ver a uva. E a Eva comeria a maçã e Caim mataria Abel e ficaríamos a espera de um Messias.  

Lesma


Observo uma lesma. Paro tudo e contemplo o espetáculo daquele pedacinho de carne se mover. Verdadeiro milagre. A cidade segue a sua pressa diária. É preciso deixar os filhos na escola. É preciso achar uma vaga para estacionar o carro, tomara que o carro caiba, tomara que não se forme uma fila, esperando estacionar, pressão meu coração não aguenta, faço besteira. Alguém pensará, parece uma lesma. A cidade segue sua pressa e eu fico olhando a lesma subir a parede. Pobrezinha tem um corte nas costas de onde sai um filete seivoso. Onde teria se cortado. Vai morrer a bichinha. Vai morrer. Jamais conseguirá subir essa parede. Homens fortes construíram essa parede. Fortes e apressados. Patrão chegasse e eles não tivessem levantado, aí aí. Entre as nuvens o sol aparece, clareia o rastro que a lesma vai deixando. Parece gliter, parece gozinho. Já viu, ela se esfregando nessa parede e o jorrinho de gozo pelo caminho.

Fossas


Lembro uma carta de Isherwood para W. H. Auden, numa correspondências cheia de desculpas, finalizada com “E, veja você, que além de um enxame de doenças, minha fossa veio transbordar hoje pela manhã. Estou, como pode ver, ilhado em doenças e excrementos.” Pois vejam vocês, passei metade da vida sem refletir sobre a importância da fossa. E, nos últimos dias, não faço outra coisa. Uma obsessão. A humanidade se fez com fogo, água encanada, geladeiras e fossas fundas e robustas. Perguntará, um curioso leitor, de onde tirei estas considerações sobre as fossas? Direi: do Chico Sá e seu livro Big Jato, que, além de bem escrito, é divertidíssimo. Livro anedótico e espirituoso. Nele, pai e filho, ganham a vida desentupindo fossas com o auxilio de mangueiras sugadoras e um caminhão, o fenemê.

Poderes de Deus

Amigos, suponhamos que um de nós fosse o Deus poderoso. Cada um com a sua vaidade latente, e não me venham dizer que a excluiriam. Vaidade, soberba, jactância... A minha, por exemplo, seria piscar um olho e derrubar chuvas nos sertões sem fim ou ainda estalar um dedo e madurecer seriguelas. Frutinha que regozija a alma. Pois bem, cada um ostentando a sua divindade e, para dá verossimilhança, cada um com o seu diabo lazarento, acorrentado a um poste, raivoso de carrapatos lhe chuparem o sangue. Ao diabo, veja bem, não faltariam motivos a sua hidrofobia.

Um leitor já havia reparado, “em seus textos o diabo flui, vem à tona como se fosse um bom dia, boa noite. Parece que o demo lhe toma as rédeas". Espetáculo de comentário. Renderá outra crônica. Esperem só para ver o texto infernal que virá. Mas voltemos ao assunto. Um de nós sendo o Deus poderoso. De modo que poderíamos apontar um sujeito na rua e dizer, este é ladrão. Ou mesmo dizer em megafones, fulano de tal é ladrão, saiam de perto, chamem a polícia, prendam-no. E todos ficariam sabendo os impostores do mundo. Eu mesmo não conheço ladrão pela cara. Pela cara, seria enganado por todos. Tenho mania de achar que todo sujeito tem bom coração. Confesso ouvir mentiras de pessoas que nunca achei que mentissem, nunca seriam acometidas de tal vilania, e me vejo fazendo esforços para acreditar no loroteiro. Sou capaz de ajudar na mentira. Desembaraço o mentiroso, guio até a saída do labirinto.

Costumo achar um Jesus em cada Judas.

Daí que esses dias cheguei a uma conclusão: os piores mentirosos, os pulhas número 1 do Brasil são os que falam de Deus e conservam a alma do diabo. Não faltam, meus amigos, exploradores da fé. Não faltam cordeiros que deixem o pescoço ao abate. Vejam só o desastre. Em Formosa, interior de Goiás, o Bispo e mais quatro padres, estavam se apropriando das ofertas. Aos olhos de Deus, estes gatunos agiam. Repartiam o apurado como se tivessem trabalhado o dia todo na feira e chegasse a hora dos dividendos. Compravam casas, carros, iphones e pediam pizzas de palmito, - a mais cara do cardápio – com refrigerante light. Ladrões! E pior, bando de ladrões santificados, pois, mesmo desmascarados, ainda existem fieis que lhes queiram defender. “Que é que tem o homem ter um carrinho, todo mundo não tem? Que vira-lata, hoje em dia, não tem um celular?” E o diabo vai agindo no mundo, botando na gente essa mania de achar que todo mundo tem bom coração. Deus me livre e guarde!

Liberdade


Na janela do meu escritório pousa um passarinho. O mais vagabundo e vira-lata deles: o pardal. Defeca e fica me olhando, virando a cabeça pra um lado e outro. Intrigado, fecha um olho, como se fosse um consertador de relógios antigos. Examina-me. Resolvo fazer o mesmo. Fico a imitá-lo, torcendo pra que a esposa não abra a porta e se depare com a cena.

O pardal é um pássaro vagabundo, pois sim. Mas, é justamente aí a sua vantagem. Nenhum outro pássaro no Brasil consegue vagabundear os céus. A calopsita, o canário, o papagaio, o galo de campina, o sanhaçu... Estas criaturas vivem desassossegadas. Coraçãozinho pulando pela boca. Voos curtos, com várias escalas entre as árvores, escondendo-se entre folhas. Estes fugitivos possuem a tristeza de nunca estufar o peito e pousar para uma fotografia. Qual o crime deles, senão o de serem bonitos e cantarem bem. A beleza põe a mesa e, também, põe na gaiola. O pardal não. O bichinho é feião e desafinado. Um desmantelo. E, por tudo isso, é que ele é o detentor dos ares, engolindo tanajuras em pleno voo, ciscando em qualquer quintal, pousando e defecando em qualquer janela.

Se mil vidas tivesse, mil vidas quereria ser um pardal. O mais vagabundo deles.  

Bonecas

Um amigo telefona da França. Pergunta se a passeata das prostitutas estaria repercutindo no Brasil. Fico calado, pensando do que se trata. O amigo se espanta e começa a falar do atraso do nosso país. Que agora só damos importância a bate-boca entre ministros do Supremo. Mas afinal, e as prostitutas, o que têm elas? Pergunto. E contou-me a história. Tim-tim por tim-tim.

Amigo leitor, vejam só: no país dos perfumes e escargots, só se fala das bonecas de silicone. Loiras, ruivas, negras. A preferência do freguês, que paga certa quantia e leva as bonecas para o quarto. Lá ficando por uma ou duas horas nas mais corrompidas praticas do sexo. Para deixar a coisa ainda mais picante, as bonecas possuem um repertório de mais de duzentas freses com variados níveis de equalizações.

As prostitutas francesas com o medo evidente de perder a freguesia, já começam a fazer barricadas e pressionar os políticos (alguns até fregueses antigos). Qual saída teria achado o governo? Segundo o meu amigo, o argumento que se levanta é o de que as bonecas estariam sofrendo abusos, prostituindo-se contra a vontade. A defesa dos cafetões é a de que entre as mais de duzentas frases, nenhuma deixa claro que as bonecas estejam sofrendo abusos.

E a gente aqui, achando que os ministros do Supremo seriam o fim da picada.    

Ximbre

O meninozinho foi chamado pro jogo de ximbre
ele sem nenhuma bolinha
deu doido
e tirou um olho


© Helder Herik
Maira Gall