DEVEDÊ







A cor do nascimento. A pessoa bem que podia escolher a cor de nascimento. Vermelho, azul, lilás, a cor verde do Hulk, a cor amarela dos japoneses, a amarela dos suecos. Cor preta, cor branca. Se eu escolhesse escolheria pra nascer com a cor azul, o azul de Avatar. O filme avatar. Aquele azul todo. O filme ainda no cinema e o DVD nas ruas. O cartaz no cinema: Avatar, seg, ter, qua, qui, sex, sab e dom. Todo dia sendo dia de Avatar. O mundo avatazando, avatariando, avatariolando. O filme ainda no cinema e o DVD já a venda nas caixas de sapatos, o DVD estendido no chão. O DVD não mão. Quanto é? “Dois reais.” Se travar moço, se esse bicho não rodar no player, se travar? “Travando pode trazer que a gente troca.” Vou levar esse. “Leve três que fica por cinco.” O vendedor é malandro ou é amigo? Malandro, sabia que eu só queria um. Só queria o Avatar. O vendedor induzindo ao consumo. O vendedor amigo. Sim, amigo, pois tiraria um real se eu levasse três. Um real já é muita coisa. Um real aqui, outro real ali. Aqui ali, aqui ali e a economia agradece. O que é um real? Nada, olhando direito um real não é nada. Mas um real de todo mundo que está acordado, não é dinheiro não? Até de quem está dormindo, a baba descendo do canto da boca, até de quem está dormindo agora, agorinha nesse momento, um real já é dinheiro. A pessoa escolhendo mais dois DVDs. A pessoa sendo esperta escolhe um DVD com três filmes. A trilogia Bourne num só. A trilogia compilada. A pessoa indo comprar filme por filme, tinha real que aquentasse? Tinha uma cebola que tinha. Agora a qualidade é ruinzinha, mas da pra assistir. Quando era VHS não era ruinzinho também? Não havia DVD, então o VHS era bom, não tinha o chiado da TV. O fora do ar da TV. O VHS era o top de linha. Era ou não era? A imagem está ruim porque o cabeçote está sujo. Maior charme, maior entendimento a pessoa chegar e dizer: o cabeçote está sujo. Veio o DVD e o tão bom do VHS ficou ruim. É a modernidade. Você tem que comprar o mais moderno senão fica pra trás, pro tempo das cavernas. Agora já é o tempo do blu-ray. Já ouviu falar? Cabe tudo dentro do blu-ray. As falas de uma família, as discursões, os sonhos, cabe tudo dentro do blu-ray. Lágrimas é que não cabem. Para as lágrimas não há cabimento. Três filmes num DVD só. A imagem ruinzinha, mas, ainda assim melhorzinha do que o VHS. Avatar, Trilogia Bourne. Falta um DVD pra inteirar os cinco reais. “Tem esse aqui de ação: Busca Implacável. Gosta de ação?” Pode ser. É de ação de tiros ou ação de murro? “Esse têm os dois. Esse bicho aqui é o ator principal. Os terroristas sequestram a filha dele e o homem se vira em cobra...” Pronto, três por cinco. Feriadão pra assistir filmes. Se fosse pra escolher a minha cor de nascimento eu escolheria a cor azul de avatar. Azul com essa listrazinha clara. Escolhia só a cor. A cor já bastava. Queria essa cara de avatar não. Nem a cara e nem o tamanho. Como é que iria entrar dentro casa?  Batendo na laje, estambocando, só se fosse. Dormir com os pés pra fora da cama não dá. Tomar banho acocorado que eu não ia. Falar aquela língua deles. Aquela língua enrolada. Coloco o DVD na bandejinha, aperto e ele vai pra caverna. O DVD não tem nem o menu. Colocando ele começa. Bom assim: já começar começando. Livra a pessoa de esperar a apresentação, os trailers. O filme começa. A filme avança. Frio, depois morno. Depois o filme esquenta e o DVD trava. A pessoa tira o DVD. A pessoa frustrada tira o DVD e xinga o safado que vendeu. Limpa o DVD na blusa, põe de novo e nada.  E nada, e nada. Será que eu ainda lembro a cara dele, a voz dele, do safado? “Travando pode trazer que a gente troca” 

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