MANIA

Mania feia que eu tenho é de falar pegando nas pessoas. O povo todo acha feio. A família toda acha muito feio. Coisa de gentinha, eles dizem. Coisa mais obscena, mais erótica. Eu mesmo tenho que ser a meu favor. Primeiramente eu por mim, os outros não me interessam muito. Os outros podem ter carro, casa na praia com piscina, pés de coco, quiosque na porta de casa e tudo mais que inveja eu não tenho. Posso até olhar, posso até admirar, dizer que esse cara deve ter vida boa e tudo, mas inveja mesmo eu não tenho. Riqueza demais me incomoda. Eu sofro de medo de ser rico demais na carteira, no colchão, no banco, na Suiça . Coisa na minha cabeça dizendo que é pecado. Tanto de quem já nasceu rico, quanto de quem saiu da pobreza. Rico não, mas ser muito rico eu tenho medo. A pessoa fica muito rica, mas fica com cara de pobre ainda. Se não for na cara, mas no jeito de andar. Pobre rebola mais. Tanto rebolou pra viver que o rebolado ficou encrustado. Fica rico, mas ainda fica pobre. Um dia desses uma pessoa disse: você fala igual italiano. Um segundinho de nada e eu pensei que tinha sotaque italiano, figura-te, babene, caspita, coisa assim. A pessoa disse: você fala igual italiano, pegando na pessoa, segurando com essa distonia toda. Então na hora eu inventei uma estória. Bem assim: eu era pequeno, tomava banho no Rio Mundaú e fui entrando mais na água e fui entrando mais e comecei a afogar. Eu abrindo a boca pra pedir ajuda e a água entrando, engasgando, glut glut. Eu sacudindo os braços pra vê se segurava em alguém e cadê alguém aparecer. Depois alguém apareceu me salvou e fiquei com essa mania. Essa mania de ficar falando a tocando na pessoa, como se eu fosse morrer afogado.

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