NEGÓCIO

A mulher que foi propondo. Ele ouvindo. Nem balançava a cabeça, que sim, que não. A mulher falando sem ter a resposta, uma aprovação. Uma cara feia sequer. Que homem é esse que ela foi arrumar? Homem de gelo. Desses só podia ser de gelo. Desses que a pessoa fala e ele nem aí pra vida. A pessoa se descabelando. A pessoa morrendo, a pessoa já nos últimos suspiros e ele nada. Ingrato. Também que se desse um desconto. O homem havia trabalhado o dia todo. O dia todo era: levantar as quatro, ela ainda dormindo, levantar as quatro e tomar café de ontem. O café já perdendo o morno. O café menos morno do que urina. Sabe a urina, a primeira urina do dia, aquela que ficou guardada da hora que a pessoa deita até a hora de levantar no outro dia, sabe essa urina que todo mundo têm? Pois essa urina ainda era mais quente que o café que o homem tomava. A mulher não podia acordar, às quatro horas se acordasse ficava o resto do dia sem dormir, pelejava e não conseguia. Ficava meio morta, meio zumbi. Quem a visse diria que era um zumbi. Sabe um zumbi, coisa nem viva, nem morta? Ele que fechava a garrafa de café. Apertava a tampa. Apertava a tampa com tanta força que pela manhã ficava com dificuldade de abrir. Ele tinha mais força pra fechar a tampa do que pra abrir. Ele só não, todo mundo. Fechar e fácil, abrir é que é difícil. Também se diga que de manhã a pessoa é mais fraca. Logo de manhã, logo quando acorda a pessoa é fraca. Vai ganhando força com o tempo, com o tempo vai acordando direito e entrando na vida. Então ele tinha menos força pra abrir a garrafa. Pra abrir a garrafa e também pra lembrar se estava fazendo força pra abrir ou força pra fechar. Porque é assim: Têm hora que a pessoa endoida, nem sabe se está abrindo ou fechando. Das vezes que ele não fechava a garrafa era a mulher que levantava, ia até a cozinha a arroxava a tampa. Porque ficava a zoadinha da garrafa mal fechada. Tchuuaacrootchuu. O chiadozinho da quentura escapando. A noite qualquer chiado vira um carro de som; o barulho crescendo, incomodando-incomodando. Então ela fechava a tampa pelo barulho, nem era pelo marido, pelo café quente de madrugada. Às quatro horas ele se levantava, tomava o café de urina e sai pro trabalho. Pegava dois ônibus: um que chagava até um tanto, outro que chagava até o resto do outro tanto. Trabalhava na construção civil. Pedreiro dos bons. Tinha quem pusesse defeito em acabamento que ele fizesse não. Estava erguendo um shopping já no fim do mundo. Ano passado era um hotel, então ele só pegava um ônibus, tinha tempo pras conversas da mulher quando chegava, as lorotas que ela contava. Agora era o shopping no fim do mundo, dois ônibus e o corpo só o molambo à noite. Tinha semana que eles nem brincavam. A mulher querendo, a mulher se queimando e ele roncando. O que ela falava tanto e ele nem ligava, o que ela queria era montar um negócio. No Brasil é assim: foi-não foi o povo monta um negócio. Começa no improviso: uma barraca, tamboretes e coisas de comer: pastel, coxinha, enroladinho. A mulher queria coisa maior, queria vender petisquinhos não. Queria era coisa com comida de panela. Queria procedência, queria moral. Quem não quer ter moral, não e mesmo? Nos estádios de futebol, ela perguntou, nos estádios de futebol não têm sempre o vendedor de cachorro quente, aquele cachorro quente ruim pra danar não tem? Têm, ele respondeu, têm sim. Quando a Prefeitura arma o parque de diversões não têm pipoca e pipoqueiro, não têm? Têm. Então meu filho, acorde, estamos perdendo dinheiro. A casa vizinha à deles era uma Casa de Velar os Mortos. Muitas rezas, muitas velas, coroas de flores e muita fome. O povo amarelo de fome. O povo, a bem dizer, já morrendo de fome. Vai dar dinheiro meu filho, pode ter certeza que vai dar dinheiro. A Casa de Velar os Mortos era grande, a Casa de Velar os Mortos era enorme, cabiam seis defuntos. Cabia uma chacina. Cada defunto com cinquenta parentes, duzentos amigos e inimigos. Inimigo sim, por que não? O inimigo vai ao velório certificar da morte da pessoa odiada, olhar pro nariz, examinando se respira, joga a primeira pá de terra e tudo. Não tinha dia que não houvesse dois, três defuntos. Teve um dia que a casa lotou com seis defuntos, parentes, amigos e inimigos. Seis defuntos e mais um ficou de fora, esperando vaga.  Em frente as escolas não têm sempre uma barraca vendendo... Topo, o homem disse, meio que ressuscitando, eu topo.

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