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Mostrando postagens de Dezembro, 2010

CAMBRAIA

Ela vinha com o corpão de montanha. Sentava, abria a gaveta da máquina, e escolhia uma cor. Tirava o carretel de linha azul, puxava a linha, saia enfiando nas engrenagens da máquina. Checava a correia dos pedais e pedalava. Pedalava para fazer o teste, só para esquentar a dormência da máquina. Depois ela abria o guarda-roupa, pegava o tecido. A cambraia. Encaixava a cambraia na mira da agulha e pedalava. Agora pedalava pra valer, tchac tchac tchac. A máquina de costura puxava o tecido, a mão dela indo junto, a mão puxada, a mão chegando perto da agulha que pinicava tic tic tic, a mão saltava para trás (a mão um caranguejo). Ficava assim: indo para frente, saltando para trás. Ficara treinada com o tempo, nem pensava; a mão saltava mecanicamente (macaca velha, a mão). Ele era bem pequeno, coisa de cinco, seis anos. Pequeninho. Cabelo encaracolado, os cachos pendendo (minhocas que saiam da cabeça dele). Ele tirando remela, o dedo no olho, rodando, a remela se partindo, caindo (uma formig…

MATÉRIA DO BLOG AGENDA GARANHUNS, POR WAGNER MARQUES

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HELDER LANÇA LIVRO E VENDE 350 EXEMPLARES EM UMA SEMANA
O poeta Helder Herik está lançando seu terceiro livro, que vendeu em Garanhuns, impressionantemente, mais de 350 exemplares em uma semana. A obra pode ser adquirida na Livraria Mec, Pérola Joia, Banca de Revistas Avenida e, brevemente, na Livraria Casa Café. Trata-se do livro SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO. O poeta, segundo o crítico literário André Cervinskis, vem construindo uma obra que se destaca no cenário atual da literatura e, embora seja pouco conhecido do grande público, é um nome que vem se fazendo conhecer nas rodas literárias.

Já para o consagrado poeta Mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, Helder é um poeta original e um dos nomes para a literatura brasileira marcar. A romancista Luzilá Gonçalves Ferreira revela que o poeta leva a sério sua vocação de trabalhar as palavras e seus livros podem ser lidos sem causar o tédio de alguns livros que vem se publicando com o nome de poesia. Para deixar o leitor a par da densidade poéti…

MELANCOLIA

os bois na fazenda
veem a vida cercada
miram devagar quem passa...
...e ficam tristes devagarzinho

CÓLERA

Bem antes do terremoto a vida já era bem ruim, bem já beirando o inferno. Água encanada é luxo, coisa de barão, de príncipe, coisa de Michael Jackson pra lá. Michael Jackson! Eu gostava dele, aquele jeito doidão, meio soldado, meio mulher, o moonwalk eu gostava, aquele nariz de biscuit eu gostava. Sem Michael o mundo seria uma fila de repartição pública. Na fila, por favor. Quer ser atendido, senhor? Então entre na fila, por gentileza. Trouxe os documentos? Está faltando tal documento senhor, é melhor vir outro dia. Quando eu era mais novo tentava imitar o Michael Jackson. A tarde toda naquilo, a tarde na ponta do pé, até aprender o moonwalk. Não existe criatura no mundo que não tenha imitado: batido o pé no chão, balançado a cabeça e dado embigadinhas. Tinha uma televisão ligada na praça, a gente tirava do jornal e colocava nos vídeo clips. Televisão em casa, geladeira, computador, isso aí já é coisa de outro mundo. Sonho nosso era chegar em casa, tomar um gole de água gelado. Tirar …

FILOSOFIA

2
as coisas
que não se pensaram
escondem-se em poleiros
chocando-se