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Mostrando postagens de Janeiro, 2011

CORINGA

Pai havia me dito pra enrolar a ponteira no pião. Eu lá de baixo, olhando a boca dele abrir. Enrole garoto, enrole. Era mesmo assim que ele mandava, enrole... Tinha momentos que a boca do meu pai abria mais rápido, a voz aumentava e a cara ficava igual quando brigava com a minha mãe, a sua mulher, a minha mãe. Os dois no quarto, o barulho dele, do meu pai, o barulho da mão dele caindo nela, na minha mãe. A mão dele caindo nela, ela caindo no chão. Ele a mandando levantar e ela ficando no chão, ele chutando e ela chorando, minha mãe chorando e eu gritando na porta. Eu batendo na porta, meu sangue manchando a porta, a porta toda rabiscada do meu sangue. Ela chorando, ele gritando, eu gritando... A boca do meu pai abria mais rápido quando eu não respondia as coisas. Ele perguntando e eu calando. Eu lá embaixo olhando meu pai espumar. Eu olhando como se meu pai tivesse dentes bonitos, como se pai tivesse uma casca de feijão nos dentes, como se tivesse um buraco estragado de cárie. Está ou…

SAMBA CRIOULA

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também a disciplina da árvore a sustentar a casca da fruta verde a dureza e o amargo também a disciplina da mãe que mais que a árvore o fruto podre não expele

SAMBA CRIOULA

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da mão aberta o sol nascia o parto da mão fechada germinando pra mão aberta o sol a mão fechada: o sol escapando pelos dedos a lagrima caindo no sol regando o sol dele ter na mão

NO FUTURO

a mãe nem precisará engravidar bastará abrir a geladeira e descongelar um filho no micro-ondas

LÁPIDE E MUSGO OU A POESIA ESCATOLÓGICA EM HELDER HERIK

Imagem
*por ANDRÉ CERVINSKIS O novo livro do jovem poeta Helder Herik, Sobre a lápide: o musgo (Garanhuns: Ed. Do autor, 2010), consegue dar continuidade ao estilo que o autor vinha seguindo, de poemas com temáticas pós-modernas. O autor é natural de Garanhuns. Professor de filosofia e literatura, já publicou os livros amorte (2008) e as plantas crescem latindo (u-carbureto, 2009). Como havia afirmado em resenha anterior, influenciadas por autores modernistas como Manuel Bandeira, João Cabral e especialmente Augusto dos Anjos, embora ainda permaneçam as características dos versos livres e curtos. Helder Herik toca em temas que são corriqueiros e até banais para todos nós:

Utilizando-se de recursos poéticos que demonstrem a fragilidade humana, o autor chega às raias da escatologia, encontrando motivação lírica no convencionalmente não-poético, como augusto dos anjos, conforme podemos aferir nos seguintes versos: Para que amorte/ dome os ossos-tutanos,/ (que sempre existe um nervo/ de rabo de la…

SENTIMENTAL

um dia ela recebeu um buquê de flores (com
abelha e tudo) agradeceu e foi para o quarto
[chorar a dor da florzinha cortada no talo

O GATO MAIS VELHO, O GATO MAIS NOVO

O gato mais velho chegou até à porta, juntou as patas da frente com as patas de trás, empinou o rabo, balançou um pouco a traseira, pegou fricção e pulou. As patas dianteiras chegaram à janela que estava aberta, as traseiras não, era preciso escalar. O gato mais novo fez o mesmo: Juntou as perninhas, empinou o rabo, balançou a traseira, pulou e só as patas dianteiras é que alcançaram o beiral da janela, era preciso escalar. O gato mais velho e o gato mais novo faziam força com as patas traseiras. As patas esperneando, arranhando a tinta da porta. Quando as patas traseiras chegaram ao beiral da janela, os gatos se equilibraram, os dois na corda bamba, meio caindo pra frente, meio caindo pra trás. Pêndulos. Empinaram os narizes, cheirando o ar, estudaram os odores. Hora de pular, ir ao ataque. O gato mais velho queria ser o último, fez gestos com a cabeça, cedendo à vez. O gato mais novo vacilava, tremia, miava. Medo de deixar o pêndulo e pular no abismo. Primeiro os mais velhos, dizia …

FANTASMA

um dia ele comeu tanta carne
que se desfantasmizou
se desfantasmilizou
se de-sin-des-fan-tas-mi-li-zou-se


bem
um dia ele comeu tanta carne que a fumaça
pegou ar e virou gente

DEGENERANDO

Um olho meu se degenerando, perdendo viço. Um olho meu de vista cinza. Sabe pé de pato? Que assim: já vem com aquele couro entre os dedos, aquela coisa emendada, aquela membrana. Pois esse couro deu no olho meu. Arranha e cobre o olho, coça. Eu sempre com o dedo, coçando. “É catarata!” Catarata não, tia minha teve e não é assim, essa coisa assim: derramada e lamentável. “É vista morta, vista morrendo, querendo fechar o olho. O olho querendo ir pra cova, pras profundas.” Por dentro a gente é só o osso. Por dentro a gente é cemitério. A gente é que não pensa, mas por dentro a gente é cemitério. “Pois digo: olho seu almeja se fechar pra fora, pras vistas, pras imagens, os capins, as palmeiras, os vales. Vista sua cansou, almeja trancar-se, ficar embutida no osso. Rebelião do olho seu, coisa assim.” “Pois digo ainda: é catarata! Insisto na catarata, coisa fácil de sair. Tempo de meu avô já se raspava. Pessoa pega uma faca própria, abre o olho e vai raspando a carne, cuidando de não cortar…

PÁ-PUM

os pára-quedas
que vão caindo
são puns
que Deus solta
lentamente
e nós
como somos à sua imagem e semelhança
mandamos os nossos
em balões
que vão subindo
subindo
e é por isso
que Deus os sopra
ao deus-dará