DEGENERANDO

Um olho meu se degenerando, perdendo viço. Um olho meu de vista cinza. Sabe pé de pato? Que assim: já vem com aquele couro entre os dedos, aquela coisa emendada, aquela membrana. Pois esse couro deu no olho meu. Arranha e cobre o olho, coça. Eu sempre com o dedo, coçando. “É catarata!” Catarata não, tia minha teve e não é assim, essa coisa assim: derramada e lamentável. “É vista morta, vista morrendo, querendo fechar o olho. O olho querendo ir pra cova, pras profundas.” Por dentro a gente é só o osso. Por dentro a gente é cemitério. A gente é que não pensa, mas por dentro a gente é cemitério. “Pois digo: olho seu almeja se fechar pra fora, pras vistas, pras imagens, os capins, as palmeiras, os vales. Vista sua cansou, almeja trancar-se, ficar embutida no osso. Rebelião do olho seu, coisa assim.” “Pois digo ainda: é catarata! Insisto na catarata, coisa fácil de sair. Tempo de meu avô já se raspava. Pessoa pega uma faca própria, abre o olho e vai raspando a carne, cuidando de não cortar o olho. Pessoa mesmo faz isso. Pessoa de mão boa não vai cinco minutos nisso”. Um olho meu se degenerando e eu ouvindo lorotas. Vocês só sabem dizer lorotas. Eu preocupado comigo e ouvindo lorotas. A coisa mais bonita do mundo aparecendo, faiscando na frente e esse olho não vê. O outro vê, esse é que não. A coisa mais bonita aparecendo é o que? São os quês? Beija-flor em palma da mão, manso de a pessoa dar comida, tirar foto e tudo? A coisa mais bonita é isso ou é a mulher dá vida da gente, da existência toda e da morte? Mulher que esquece tudo, os pais, as molezas, os pares de sapatos, cremes de cabelos e fica com você, deitada pro amor, deitada só pra dormir junto, respirando junto quentura dos corpos. A coisa mais bonita é isso ou é um filho? A sua mesma cara, a cara mais bonita que a sua, sem rugas, sem manchas, sem aquele amargo dos dias. O filho rindo, vindo pra cima, abrindo os braços. A coisa mais bonita é isso ou é o que? A coisa mais bonita aparecendo na frente e o olho nem aí, tanto faz o que for que ele só vê o borrão. A coisa apagada, tremida. Sabe a pessoa dirigindo em dia de chuva? A água toda caindo no para-brisa, você olhando o mundo e o mundo todo embaçado, o mundo cinza, o mundo se derretendo. Um olho meu degenerando e eu vendo assim: chovendo em para-brisa. “Pois não têm aqueles rodinhos, aqueles do para-brisa chovendo, não passa pra lá e pra cá? Assim: pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Não limpa a imagem, a pessoa não enxerga melhor? Mesma coisa pra lá e pra cá dos rodinhos é a faca própria de raspar catarata. Pra lá e pra cá até o olho degenerado ficar sarado.”

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