LÁPIDE E MUSGO OU A POESIA ESCATOLÓGICA EM HELDER HERIK

*por ANDRÉ CERVINSKIS
O livro funde o lúdico da infância
com a aspereza da vida adulta
O novo livro do jovem poeta Helder Herik, Sobre a lápide: o musgo (Garanhuns: Ed. Do autor, 2010), consegue dar continuidade ao estilo que o autor vinha seguindo, de poemas com temáticas pós-modernas. O autor é natural de Garanhuns. Professor de filosofia e literatura, já publicou os livros amorte (2008) e as plantas crescem latindo (u-carbureto, 2009). Como havia afirmado em resenha anterior, influenciadas por autores modernistas como Manuel Bandeira, João Cabral e especialmente Augusto dos Anjos, embora ainda permaneçam as características dos versos livres e curtos. Helder Herik toca em temas que são corriqueiros e até banais para todos nós:

Utilizando-se de recursos poéticos que demonstrem a fragilidade humana, o autor chega às raias da escatologia, encontrando motivação lírica no convencionalmente não-poético, como augusto dos anjos, conforme podemos aferir nos seguintes versos: Para que amorte/ dome os ossos-tutanos,/ (que sempre existe um nervo/ de rabo de lagartixa)/ é prudente que cuspa/ a hemorragia, o cancro./ a febre reumática, o pigarro./ Os vermes mais embutidos.
 (CERVINSKIS, 2009)

                Lendo a obra de Herik, é inegável a influência, embora não citada do poeta Augusto dos Anjos, que nasceu no Engenho Pau d’Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Seu único livro, “Eu”, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor (ANJOS, 2011)

Para aprofundarmos nossa análise, não podemos deixar de citar o famoso poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, se quisermos traçar um paralelo entre a obra desse autor e Helder Herik, como segue abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(ANJOS, 2010)

                De fato, essa influência fica muito explícita logo na abertura do livro Sobre a lápide: o musgo, com o poema Recapeada a infância em grude, imundície, que eu gostaria de transcrever aqui logo após citar os mais famosos versos de Augusto dos Anjos, para podermos fazer uma comparação mais coerente:

antes o musgo adubava as fuligens
a poeira tornava Saara
assentando nos móveis
de expulsos que estavam da sala os móveis na despensa
saarando
de saber saberia depois:
[...]
o grude escorrendo no corpo lavado
descer a infância pelo ralo
assim: eu inventava uma lendazinha
de anotar mesmo no vidro no vapor do banho
o dedo escrevendo
cutu cutu a zoadinha do dedo vibrando
inventava que musgo se virava musgo do grude
que descia lavado
(HERIK, 2010, p. 15)

Ora, se a matéria principal de Augusto dos Anjos foi a secreção, substância mais nojenta e repugnante do corpo humano, que esse autor consegue transfigurar em versos fortes, o musgo, o lodo, ou seja a imundície da natureza é que se alia ao homem para apresentar esse verdadeiro espetáculo escatológico-literário que é Sobre a lápide: o musgo. Ao colocar logo no título dois objetos ou seres que representam coisas aversivas a qualquer cidadão de bem – o musgo (sujeira) e a lápide (morte), Helder tira a força negativa dessas palavras para trabalhar nelas senão a beleza, mas pelo menos a aceitação, a naturalidade, a confirmação de que o ser humano, além de limitado, tem também necessidades imediatas, mesmo que pouco confessadas, por razões de pudor ou religiosidade até, conforme a própria declaração do autor em sua apresentação:

Neste terceiro livro, houve a fusão dos dois anteriores. ‘Lápide’ lembrando Amorte e ‘Musgo’ lembrando As Plantas Crescem Latindo. Sob um e outro, as várias dicções. As minhas falas de poesia. Daí dizer que não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria eu de ter apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, a rede ou o tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, pescar de olhos...
(HERIK, 2010, apresentação)
               
Mas a diferença principal que traço entre esta obra e as anteriores é o aprofundamento da escatologia, isto é, das necessidades mais básicas do ser humano e dos animais, que Herik consegue com maestria transformar em poesia:

o porco chupava a lavagem
farelos cascas
 pão crioulo tomate
arroz feijão farinha...
[...]
o calango aprovava
a cabeça de dinossauro balançando
aprovando a sujimundície
(HERIK, 2010, p. 24)

daí invejadamente vinha o porco
o focinho de tomada abrindo caminho
espantando bichos de bico
medo de tomar choque que tinham
(Idem, p. 22)

lavava os gogos
que então costuravam a terra amolecida
bichos de coser que eram
caçando
a galinha ciscava o rego uma feiúra as pernas de ciscar ciscando
(Idem, p. 2)

Existiria necessidade mais comum ao ser humano do que a de defecar? Mas poderíamos encontrar então nessa atividade banal a poesia? Helder nos mostra que sim, através dos seguintes versos:

banco para depósito
o Vaso Sanitário
o papel higiênico
pra conferir
(o extrato)
tatua-se
de cima para
baixo
a branca louça
tibunga o tolete
na água
(o submarino)
depois de fechada
a escotilha
manda-se de tudo
água abaixo
pelo cano
(yellow submarine)
(Idem, p. 36)

Chamaríamos a atenção, nesses versos, para o tratamento humorístico dado às fezes duras (yellow submarine), inclusive dito em inglês, para ficar mais chique. E também que, de todos os utensílios do banheiro, somente o Vaso Sanitário mereceu ser escrito em letras maiúsculas, como que para afirmar sua condição primordial para a existência desse cômodo das casas. Assim, as coisas para Herik tomam vida; fazem todas as ações de uma pessoa normal, merecendo nosso respeito como qualquer outro ser humano:

cansada a planta suava
curvava e suava
dizia que a seiva era o suor
que então eu olhava direito
o olho bem apertado de mirar
olhava clínico
oftalmológico
[...]
o sangue amarelava tinha hora
 — amarelão
a gente da mesma cor
do corpo ser
e por baixo do couro o sangue amarelando
(Idem, p. 20)



O fogão, a geladeira, o armário e o próprio palito de fósforo, objetos tão simples, chamam a atenção do poeta por provocarem nele estados de pura contemplação da realidade que o cerca, a beleza e outros estados se revelando no cotidiano:

muita fome
as bocas abertas
de pouca fala (as bocas)
só escapando o gás
elas chamam
grávido
o botijão amamenta
por cordão umbilical
(Idem, p.30)

porta mais precisa
adquiriu a Geladeira
a de abrir
e guardar
não da que de fora
se entra
(e tranca)
das portas de fechar
fechadas sem trinco
(Idem, p. 31)

entre as mansas colheres
a faca-peixeira
mais perigoso o facão
formado bandido
investigando
o perito encontrará
provas de crimes:
corte mutilação assassinato
provas de crimes
(já engavetados)
(Idem, p. 32)

o Fósforo igual ao gênio:
a força da cabeça
expelida (iluminada)
sob tensão
(pavio curto que é)
logo esquenta
perdendo a cabeça
explodindo
(Idem, p. 33)


Corajoso, contemporâneo, original, embora não negando influências. Seguindo a esteira do grupo Urros Masculinos, Dremelgas ou mesmo o Nós-pós, Herik se apresenta para nós nesse seu mais recente livro, inserindo-se completamente no novo cenário anárquico, despojado, antiacadêmico e informal da atual literatura pernambucana.


Sobre a lápide: o musgo é obra para ser lida sem frescuras, com abertura de mente; dessas que a gente leva ao banheiro para as necessidades básicas e inadiáveis, como é a poesia.

Olinda, 19 de janeiro de 2011.

*André Cervinskis é descendente de lituanos e nasceu em Recife, dia 13 de maio de 1975. Mestre em Linguística, graduado em Comunicação Social — UFPE. Entre suas principais premiações destacam-se o Cancioneiro infanto-juvenil para a língua portuguesa, categoria 16 — 19 anos (1992) — Lisboa — Portugal, no ano de 1992, além de dois prêmios do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (1992 e 1995). Recebeu o prêmio Antônio de Brito Alves (ensaios), da Academia Pernambucana de Letras (2003,2007 e 2009). Colabora, desde 2005, com o suplemento literário Correio das Artes, do Diário Oficial da Paraíba (A União) e com o “site” Interpoética (www.interpoetica.com ). Seu primeiro livro, Oficinas de corpo (2002), está na segunda edição (2005). Pelo livro Manuel Bandeira, poeta até o fim, recebeu a menção honrosa do Prêmio Vânia Souto Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, ensaio, em 1994. Lançou também: De Imilce a Medellín: a Poesia de Lucila Nogueira; Saúde, cultura e catástrofe: ensaios de comunicação; e Ensaios de Circunstâncias (Prêmio Antônio de Brito Alves, de ensaio, 2008). Participa da União Brasileira de Escritores — Seção Pernambuco — e da Sociedade de Poetas Vivos de Olinda.

REFERÊNCIAS:
 ANJOS, Augusto dos. Disponível em:  http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp. Acesso em 19 de janeiro de 2011.
CERVINSKIS, André. Disponível em:
HERIK, Helder. Sobre a lápide: o musgo. Garanhuns: Ed. do autor, 2010.

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