O GATO MAIS VELHO, O GATO MAIS NOVO

O gato mais velho chegou até à porta, juntou as patas da frente com as patas de trás, empinou o rabo, balançou um pouco a traseira, pegou fricção e pulou. As patas dianteiras chegaram à janela que estava aberta, as traseiras não, era preciso escalar. O gato mais novo fez o mesmo: Juntou as perninhas, empinou o rabo, balançou a traseira, pulou e só as patas dianteiras é que alcançaram o beiral da janela, era preciso escalar. O gato mais velho e o gato mais novo faziam força com as patas traseiras. As patas esperneando, arranhando a tinta da porta. Quando as patas traseiras chegaram ao beiral da janela, os gatos se equilibraram, os dois na corda bamba, meio caindo pra frente, meio caindo pra trás. Pêndulos. Empinaram os narizes, cheirando o ar, estudaram os odores. Hora de pular, ir ao ataque. O gato mais velho queria ser o último, fez gestos com a cabeça, cedendo à vez. O gato mais novo vacilava, tremia, miava. Medo de deixar o pêndulo e pular no abismo. Primeiro os mais velhos, dizia o miado do gato mais novo. O gato mais velho engoliu a saliva, semicerrou os olhos, apertou bem a boca, não morderia a língua dessa vez, pulou. Pof. Foi o barulho seco, pof. O peso todo nas patas dianteiras. Pof, estalaram os ossos. Levantou uma pata, depois a outra. Estavam inteiras. Apesar dos anos, os estalos, estavam inteiras. Olhou pro gato mais novo. Pássaro que daria o primeiro voo, as asinhas servindo de nada. O gato mais velho miou dando ordem pra pular. O gato mais novo cabeceou indignado, escorregou um pouco, miou e pulou destrambelhado. Pof. Levantou uma pata, depois outra, achando que era assim que se fazia. Depois disso correu para a cumbuca de ração. Bandido: sentia fome, corria. Sede, corria. O gato mais velho iria à cumbuca também. Desistiu. Mastigar os grãos de ração doía os dentes. Uns dentes que ainda tinha. Uns que sobraram. Pensou tomar água, mas a língua molenga derramaria tudo. Depois comeria e beberia. Agora queria descansar as pernas, o corpo. Caminhou para baixo da mesa, deitou-se. A vida era até boa. O gato mais novo comia na cumbuca, troc-troc. Bebia, glut-glut. Voltou com a barriga estourando. O andado de vaca prenha, bucho pra um lado e pra outro. Deitou no meio da cozinha, espaçoso, largo. A vida era até boa. O gato mais velho o mandaria sair dali com um miado. Achou melhor não. O pequeno tinha que aprender, não o teria para sempre. O gato mais novo esticou uma dianteira e começou a se lamber. O gato mais velho tentou imitar e fracassou. O gato novo se lambia, lep-lep, mordiscava e lambia, lep-lep, quando levou um pisão no rabo. Foi aquele miado alto. O miado balançando a casa. Foi aquela agonia. O desejo de morder aquele pé, arranhá-lo, e a prudência em não fazê-lo. Ali estava quem o tirara do olho da rua. Quem o livrara de pneu por cima, carroça, caminhão. Mordeu e arranhou. Aquele peso todo não aguentava, nem com rabo de ferro, que perdoasse, mas, era preciso morder, aranhar, o que fosse, o que foi. Como represália levou um chute, parou embaixo da mesa. Chuto mesmo, ora essa. Um gato de rua, um gato sujo, remelento. Dou comida e me tira sangue. Chuto mesmo, crio lá onça pra me comer! O gato mais novo se recompondo, tentando pegar as estrelinhas que rodeavam a cabeça. Trabalho inútil. Melhor pegar a formiga no meio da cozinha. Lá iria ele de novo. Duvidava que o raio caísse no mesmo lugar duas vezes. Marcou o bote, traseira balançando, o rabo igual uma serpente, as orelhas pra trás e corrida. As patas bombardeando a formiga. O gato mais velho olhando, lembrando seus tempos. Lembrando o choque no fio da televisão. Parecia um embuá, uma cobra invadindo a casa, aquilo podia? Não podia! Deteve-a com uma mordida que varou a borracha e chegou ao cobre. O choque. O dente preto, meio torto. O coração acelerado desde aquele dia. O gato mais velho fechou os olhos, dormiu pra esquecer a lembrança ruim. O goto mais novo deixava a formiga. A formiga já aleijada. Brincava agora com a réstia do sol que pingava de uma telha quebrada. Marcava bote, corria. Deitava, pondo vigilância a réstia, os plânctons do ar dentro da réstia, os plânctons se assanhando. Quando uma nuvem cobria o sol a réstia sumia. O gato mais novo desesperava-se. Cabeceava. Para onde foi? Agorinha mesmo aqui, bem aqui. O chão quentinho ainda, para onde? A nuvem saia e a réstia de sol voltava a pingar no chão. Agora mais longe, mais pra frente. Depois a réstia sumia, voltava já subindo a parede, já longe das patas, já sem graça. Agora tinha um escorpião no meio da cozinha, um que veio saído do nada, como eles saem. Uma espécie grande de escorpião, perigosa, assassina. Agora sim, seria uma briga justa. Seria até a reconciliação com aquele pé que o chutara para baixo da mesa, seriam as pazes. A cumbuca mais cheia, quem sabe leite no lugar de água. Já na primeira patada o gato novo fora picado. Ele tão afoito, aquele jeito elétrico, foi picado. A dor latejando na pata, uma dor pior que o choque no cobre. A dor pior da vida... Os olhos do gato novo se apertando, o coração miúdo parando de bater, aquela coisa elétrica parando. O corpinho caído, o rabo caído, os olhos se fechando, a cumbuca sumindo... Os olhos do gato mais velho se abriram, encontraram o gato mais novo brincando com a formiga, ainda.

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