NINGUÉM SABE MEU NOME

Você viu na tevê? Ligou a tevê e viu. Estava passando e você viu? Não viu? O mundo todo viu na tevê. Qualquer canal de tevê. Era ligar e passava. Ninguém sabe o meu nome, o nome de batismo que eu tenho, que meu pai me deu, meu pai me batizou com um nome que ninguém sabe direito. Todo mundo por aqui só me chama de senhora, só me chamando de senhora isso, senhora aquilo. Se eu tive medo, se eu não morri, se eu sou de carne e osso. Quando perguntam do cachorro o coração dá aquele baque. Tem cristaleira quando o vidro parte e o mundo cai? Sabe aquele baque da pessoa ficar sem treino, a pessoa ficar deslocada, sabe esse baque que a pessoa leva, esse baque me baqueia quando alguém arreganha a boca, os dentes acavalados, pra perguntar do cachorro. Primeiro as pessoa perguntam por mim, se eu sou eu mesma, entende? Se eu sou aquela senhora que quase morreu na chuva, aquela que quase foi levada na enxurrada da região serrana do Rio, aquela velha do cachorrinho, o cachorrinho mordeu ela e ela teve que soltar o pobre, ela com o coração na mão a coitada. Se eu sou essa coitada da história do povo, da fala acavalada deles, aqueles dentes deles. Têm os Estados Unidos, as tevês de lá, na língua deles? Eles me viram também. Esse mundo todo me viu naquela agonia. Do longe que é lá, eles me viram aqui. Eu aqui perto e eles do longe deles me vendo. A ciência do homem colocar minha agonia em cada tevê. O povo do estrangeiro me vendo, parando de mastigar e me vendo. Eles pensando que eu morreria, eles querendo vê se eu escapava, eu escapando, eu viva aqui, contando histórias pra boa dormir. Começou a chover cedo, a chuva já bem cedo, já madrugada chovendo. Sempre chove. Sempre choveu, trovão, relâmpago, raio, sempre houve tempero na chuva. Eu de pequena brincava na chuva, eu brincando na chuva com meus irmãos e outro cachorro que eu tinha. Sultão o nome dele. Sultão tinha um jeito de rei que os outros cachorros respeitavam. Uma pinta branca no peito que parecia uma faca. Sultão se perdeu numa mudança nossa. A gente morava noutra cidade e sultão vivia pelo mundo. Sultão atrás das fêmeas. O caminhão chegou e não quis esperar por Sultão. O caminhão já era um favor, uma amizade de meu pai. O caminhão não esperou um minuto pelo Sultão. A gente com uma pena do cachorro dá com a casa vazia, ficar desorientado, pegar raiva da gente. Meu pai disse que voltava pra pegar Sultão, mas meu pai nem nunca voltou, nunca pode. A gente chorando na carroceria do caminhão. Minha mãe dentro da boleia, a boleia fechada e ela chorando. Uma vontade minha de pular do caminhão, meu pai percebeu e segurou na minha mão. Aquela corda que me jogaram pra segurar, que me jogaram pra água não me levar, aquela corda também era a mão de meu pai, aquela corda sendo a mão de meu pai me segurando pra não pular atrás do cachorro. Eu agora sem o meu cachorro. Aquele que a água levou. Aquela criatura, o meu cachorro.

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