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Mostrando postagens de Março, 2011

A POESIA PARIU A FILOSOFIA

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não seja burro
seja diferente

O POVO NOSSO DE CADA DIA

Foi o que eu havia dito, eu dizendo, a fala saindo clara. A minha voz saindo clara, a minha voz da minha boca, a claridade da minha voz, quem tivesse ouvido que fosse me ouvindo, eu dizendo e o povo me ouvindo, quem bem quisesse me ouvindo que eu não tinha segredos. Os segredos da boca pra fora, se eu tivesse. O programa começando, já entrando no ar. A mulher cheirando bem. O cheiro dela, da limpeza dela. Os cabelos dela cheirando a mato. Um mato bom, de fazer chá. O chá de curar as dores. Minha Avó com as dores da perna dela, as pernas latetejando, ela tomando chá. Ela curando. A minha avó, curando. A repórter deu a boa noite. Nem pra mim, nem pra ninguém, pra todo mundo. Os telespectadores, todo mundo. Boa noite! Esta é mais uma edição do Jornal da Noite e estas são as principais notícias. Então ela disse. Nem olhava pra gente, só dizia olhando pra câmera. A câmera parada, a tela abaixo subindo as notícias, ela dizendo o que subia na tela, os olhos sem piscar, os olhos dela vidrados…

A GENTE UNHA E CARNE UM DO OUTRO

Tempão que eu vivia com ela. Eu de pequeno nos braços dela. Ela mostrando, dizendo que eu era o menino dela. Desde o dia que ela me achou no lixo que ela dizia que eu era o menino dela. Um presente caro de se mostrar ao povo, eu era. O povo olhando assim, o jeito assim do povo olhar. Assim de lado, a boca subindo de lado, o jeito ruim do povo olhar. Eu já ali, de pequeno, nos braços dela. Nem lembro da minha mãe, nem do meu pai, nem dos irmãos, nem lembro do lixo onde ela havia me achado, fuçando em saco plástico, rasgando o saco e fuçando. Lembro dela. A primeira coisa que vem é ela. Só lembro dela em diante. Ela me colocando no braço, me chamando de menino, de meu menino do céu, de meu anjo. Ela me banhando. Me banhando porque eu vinha do lixo. Eu nem me lembrando do lixo, do grude meu que veio do lixo. Ela me banhando, a bacia de zinco, a água e o sabão caindo nos olhos, o sabão ardendo, eu esperneando, me debatendo, as unhas pra fora e me debatendo. Ela me atolando no tanque, o de…

FOTOS DO LANÇAMENTO DO LIVRO - SOBRE A LÁPIDE: O MUSGO - SESC GARANHUNS (23-02-2011)

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