A GENTE UNHA E CARNE UM DO OUTRO

Tempão que eu vivia com ela. Eu de pequeno nos braços dela. Ela mostrando, dizendo que eu era o menino dela. Desde o dia que ela me achou no lixo que ela dizia que eu era o menino dela. Um presente caro de se mostrar ao povo, eu era. O povo olhando assim, o jeito assim do povo olhar. Assim de lado, a boca subindo de lado, o jeito ruim do povo olhar. Eu já ali, de pequeno, nos braços dela. Nem lembro da minha mãe, nem do meu pai, nem dos irmãos, nem lembro do lixo onde ela havia me achado, fuçando em saco plástico, rasgando o saco e fuçando. Lembro dela. A primeira coisa que vem é ela. Só lembro dela em diante. Ela me colocando no braço, me chamando de menino, de meu menino do céu, de meu anjo. Ela me banhando. Me banhando porque eu vinha do lixo. Eu nem me lembrando do lixo, do grude meu que veio do lixo. Ela me banhando, a bacia de zinco, a água e o sabão caindo nos olhos, o sabão ardendo, eu esperneando, me debatendo, as unhas pra fora e me debatendo. Ela me atolando no tanque, o desespero dela me atolar no tanque, tirando o sabão dos olhos, o sabão do corpo, das orelhas. O sabão nas orelhas que sempre ficava. Ela se desculpando, o destrambelhamento dela, da mão alvoroçada esfregar sabão nos olhos. Se desculpando, me dando comida, eu comendo as desculpas. Ela enchendo o prato, o gosto de mãe de encher o prato que ela tinha. Depois eu fazia digestão, depois ela me punha nos braços, depois eu lambia ela, o rabo meu balançando e a língua lambendo o rosto dela, a boca, o pescoço, a orelha dela. A alegria de lamber e balançar o rabo. As lembranças que eu tenho dela. Ela me ensinando chegar no muro, levantando a perna junto ao muro. O jeito dela me instruir urinar. A vergonha dela que alguém visse. Eu aprendendo logo pra ela não passar vergonha. O vexame dela, a vergonha. Depois de crescido uma bicicleta passou na minha pata e quebrou. A bicicleta descendo a ladeira, a banguela da bicicleta e eu cismado com ela. Eu latindo para ela. Eu correndo, latindo e ela passando por cima da minha perna, o osso estalando, trec, o osso estralando. A bicicleta descendo, a bicicleta indo embora e eu latindo com o osso da perna quebrado. Então ela veio chamando os santos, chamando nome com a bicicleta, chamando santos e chamando nomes. Arrumou umas talas e colocou na minha perna, amarrou forte e mandou que eu ficasse quieto, eu ficasse parado que ela iria rezar, pedir aos santos que me dessem cura. Todos os santos que conhecia e eu curei. As velas acessas na casa pela graça da minha cura. Depois eu fiquei sabendo, ela que disse, fiquei sabendo que ela foi na casa da bicicleta, passou o dedo na cara do menino, na cara da mãe e tudo, ela contando, passando a mão na minha cabeça, contando. Éramos unha e carne. A gente unha e carne um do outro. Lugar que ela fosse eu corria atrás. Lugar que eu fosse que ela não fosse, ela corria atrás, gritando meu nome que era pra eu não me perder dela, pra ela não perder o presente do céu, achado no lixo, o presente do céu. Ela não me enxergando ela gritava meu nome. Igual naquele dia da chuva. Naquele dia ela gritou meu nome, ela gritando, chamando e eu correndo pra junto dela. A chuva crescendo, a chuva medonha, prendendo a gente na casa. A gente sem ter pra onde ir. A gente ficando na casa e a casa indo embora: as paredes, as portas, as telhas. A gente vendo aquilo indo embora, a gente querendo ficar, a gente sem ter pra onde ir, o fim chegando. O mundo se acabando e o fim chegando. Então ela ouviu os vizinhos gritando, os vizinhos do primeiro andar mandando ela pegar a corda, gritando. Ela amarrou a corda na cintura, a casa caindo e ela amarrando a corda na cintura. A casa rachou, o chão foi embora, eu indo embora com o chão quando ela me pegou. Os vizinhos do primeiro andar mandando ela pular que eles puxariam a corda e ela pulou. A gente afundou e veio barro na minha boca e nos olhos, veio barro no nariz. A minha agonia de me livrar do barro, a minha agonia eu nem percebi, eu nem percebi e mordi ela. Ela ficou com o braço doído, um braço de segurar a corda e um braço de me segurar, um braço dela fraco, um braço me soltando, a água me levando.

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