AS ABELHAS SENSITIVAS

Ninguém sabe explicar, nem os criadores, nem os especialistas, nem os livros, nem o Google. As abelhas. O numero de abelhas diminuindo no mundo. No Brasil, na China, no Iraque e no Iran, se por lá existirem abelhas. Por que não existiriam por lá, não faz sol por lá? Faz sol, têm flores, têm açúcar, rapadura têm? Rapadura deve ter, importada daqui, de Pernambuco, daqui. Meu Avô costumava dizer que as abelhas eram sensitivas, ele trabalhando com elas, meu Avô apicultor do Estado, trabalhando com elas, elas sensitivas, percebendo a tristeza dele, o amargo da boca caída, a boca assim, pendida, os cantos da boca dele, do meu Avô, o velho que era o meu Avô. Então elas não davam nem trabalho, mansinhas que elas ficavam. Elas, as abelhas. Meu Avô chegava em casa, ficava sem ação, as mãos no bolso, perdidas no bolso. O povo da casa olhando pra ele, pra ver mesmo se ela tinha ação. Ele achando melhor ficar com as abelhas, as abelhas camaradas dele. Meu Avô dizia que as abelhas eram sensitivas, eram iguais às mães que sabiam o que os filhos sentiam. Os filhos nem sabiam o que sentiam, só as mães. Ninguém sabe explicar, nem os criadores, nem os especialistas, nem o Google. Nem o Google não saber já é de mais. Alguém desse mundo deve saber, uma suspeita alguém deve ter das abelhas estarem diminuindo.  Porque meu Avô dizia, ele dizendo da altura dele pra minha, dizia que sem as abelhas o mundo passaria fome, dizia que as abelhas polinizavam o mundo, o mundo é grande Vô, nem acaba e volta de novo. Ele ria da minha sabedoria do colégio, ele dizia que as abelhas davam um jeito e polinizavam o mundo. O jeito delas, que elas dariam, que elas polinizando o mundo não faltaria comida, que pra comer não é só plantar e esperar as chuvas. É preciso também esperar as abelhas polinizar, que polinizar é como desentupir o nariz das plantas, o nariz desentupido, respirando, crescendo. Agora, não é agourando não, ou já é, que se a pessoa fala ou pensa então já é agouro, mas as abelhas estão prevendo o fim das eras, o fim de acabar tudo, fim do fim, sabia que elas fazem isso: prevêem o fim? Fim da comida e fim da bebida, os mares avançando pra costa, se misturando com os rios, salgando a água toda, as frutas, as alfaces. As paredes que restarem de pé, as plantas que restarem de pé, tudo salgado. O fim das eras sendo o fim do mundo. Porque não é assim? Não é bem assim: as abelhas sensitivas igual uma mãe. A mãe nossa de cada dia não sabe quando vem uma desgraça? Não sonha com a desgraça, não sente a desgraça no coração, apertando, aquela pontada apertando, mãe não é assim, essa coisa que sabe das coisas, mãe não é assim não? Pois abelha é igual mãe, nem deixa o filho sair de casa, nem sozinho, nem com seu ninguém, nem insista que não sai. Filhos dos outros, que me importa, filho meu sai não, se arrebentar por aí, deixo não. A abelha rainha imitando as mães, nem deixando os filhos saírem da colméia, nem deixando saírem da barriga, nem na barriga entrando pra nem da barriga saírem. Pra sair pra onde, pra esse mundo aí, esse mundo todo aí, esse monturo?

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