O FORASTEIRO

foto: Aliança, de Laura

O homem vinha a cavalo. De longe ele vinha crescendo, já nem cabia mais na tela, se fosse um filme já nem caberia mais na tela, o homem a cavalo, vindo. Foi parando, puxando as rédeas, parou. Fez o cumprimento, o cumprimento que era tocar o chapéu com a ponta dos dedos, as unhas sujas na ponta dos dedos, aquela lua minguante de sujeira incrustada nas unhas, perguntou se o forasteiro estava perdido, se tinha parentes por ali, se estava perdido, sem rumo. Ele mesmo, o homem que vinha a cavalo poderia ser um seu parente, um ente distante da família, a família grande que acaba se espalhando, praga de gafanhotos, se espalhando, comendo os milharais, as alfaces, as acelgas, os vestidos, as estampas, os vestidos com as estampas comidas. O forasteiro bem que podia ser um filho seu. Sabe desses filhos, esses filhos que não existem e que depois aparecem, depois existem, batem na porta e a gente se assusta com uma pessoa que é a nossa cara, o mesmo focinho nosso, nossa juventude batendo a porta da nossa velhice. Então o filho nem precisa dizer nada, a agente já vai abraçando, aproveitando o tempo perdido, se desculpando, perguntando pela mãe sem nem lembrar dela, se era assim ou assada. Olhando bem, o forasteiro não tinha cara de ser filho, as feições de filho, aquela coisa indefinida, a indefinição entre doce e salgado. O forasteiro já entrava pra cara de pai, a cara que ele tinha já de pai, as feições de filho já sumidas, os sulcos, as rugas de pai já aparecidas, tomando a cara, aparecidas. O forasteiro respondeu, a boca se movendo, o homem do cavalo prestando atenção nos óculos de graus, os olhos bem pequenininhos atrás dos óculos, sou da capital, jornalista, vim fazer uma reportagem sobre o lugar, a voz cansada, a voz do forasteiro cansado como se nem viesse da boca, ali da língua, da língua, do rio de carne que é a língua,  viesse era dos pés, subindo nas canelas, escalando pro abdômen, emperrando na ossatura do peito e, a custo, se arrastando pela boca, vencendo a maratona, o pico do Everest. A voz de quem vinha a muito caminhando. De quem acostumado a carro vinha a pé. O homem do cavalo coçou a barba, olhou a paisagem e perguntou, o ar de riso dele perguntando, e esse lugar interessa lá a alguém, e depois que ele disse ele refletiu um pouco, questionou-se se  o que havia dito era uma pergunta ou era uma resposta, porque a frase, e esse lugar interessa lá a alguém, servia para os dois, para uma pergunta e para uma resposta. O forasteiro achou as duas coisas, que o homem perguntava e respondia.  Que aquilo seria uma particularidade da região, era natural porque era um costume, só dali, só daquela região, daquele lugar. Dizem que aqui é o fim do mundo, lugar esquecido pelo governo, pela igreja, pelos turistas. Isto lá interessa pra notícia de jornal, pra revista, pra jornal? E quando o homem a cavalo olhou pro forasteiro ele nem mais estava lá. Ele nem havia existido. Era aquela quentura do sol, aquela quentura de novo, as coisas tremidas da quentura, as invenções da quentura naquele fim de mundo, o juízo já gasto, o juízo quente, no fim de mundo.

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