VÓ DESENLEANDO OS CARRAPICHOS

Foto: Pessoa N Beat

Só faltava mesmo a gata falar, abrir a boca, falar. O que fosse que falasse, abrindo a boca, mostrando os dentinhos enfileirados, as garras pontudas. O focinho acima da boca, o focinho frio, abaixo dos olhos, das orelhas, os olhos abaixo das orelhas. Minha Vó criava a gata. Pegou de pequena, a gata de novinha, nem os olhos abriram e Vó a pegou. É minha, eu crio! Vó já sabia o sexo, que era fêmea o sexo. O povo se enrolava, olhavam embaixo e não sabiam, só depois de um tempo saberiam se era gata, se era gato, bicho novinho assim não tem como saber, como adivinhar. Vó sabia, o jeito dela ser mais a frente do povo. Vó a recolheu, a mãe dela, a mãe da gata, havia deixado a pobre apartada, rejeitada, pequenininha a pobre, miudinha na palma da mão, uma ratinha apartada. Vó deu leite na colher de chá nos primeiros dias, abria a boca, enfiava acolher e a gata tossia, já morrendo, tossindo. Vó esperta, Vó macaca velha, pegou um paninho, ensopou a ponta com leite e deu a gata. A gata chupando o paninho, lembrando do peito da mãe, chupando que era uma beleza. Vó dizia que era uma beleza a gata mamando no paninho, o orgulho dela, da sabedoria dela fazer a gata mamar e sobreviver. A gata crescendo, crescendo e engordando e crescendo. Já pulava a porta e já ganhava o mundo. O mundo eram os telhados. Os telhados da rua da gente, da Gervásio Pires, das outras ruas, ela batendo perna nas outras ruas, afastando as telhas das casas. Ela vadiando. Depois essa Cachorra aparece com um bucho, aparece prenha. Vó esculhambando a gata, ofendendo os brios. Essa bicha safada, sem vergonha. O povo chegava, contava terem visto a gata lá em cima, lá na outra rua, já perto da feira, de olho nos pintos, nos canários, nos  hamsters, os ratinhos; os hamsters. O povo já de olho nela, já apontando a espingarda, mirando o focinha dela, Deus livrando a pobre de um balaço. A reza de Vó, pedindo a Deus que a livrasse dos balaços, dos carros, dos cachorros, dos moleques com as petecas, as petecas mirando o calango, o rabo do calango, o rabo partido, caído na terra, se debatendo, um tourinho se debatendo. As petecas mirando a cabeça da gata, os miolos caindo, se debatendo, tourinhos. Deus que desse livramento a pobre. As rezas de Vó, as angústias todas, acabavam quando a gata chegava, a gata viva, cheia de carrapichos. Vó desenleando os carrapichos, espremendo as pulgas, alisando a cabeça. A gata com os olhos fechados, o rabo levantado e os olhos fechados. Eram as pazes das duas. Vó e a gata, as pazes. A gata só faltando falar, olhando pra Vó que era mesmo que falar, puxando a vista de Vó pra ela, encantando, enfeitiçando. Vó entendendo, lendo a astúcia, fervendo leite, esfriando, pondo no pires, jogando carne pra gata, a gata comendo, se lambuzando, comendo, bebendo. Vó olhando, Vó admirando.

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