MINHA IDEIA DE ABRIR A PORTA

Foto: Nuno Chaves


Fui ouvindo o barulho na porta, toc toc toc. Depois o barulho descia pro chão. O casco, depois de bater na porta, descendo pro chão, o cimento grosso que era o chão. Lá de cima, da janela, eu via, eu enxergava. Pelo vidro eu via. Desembaçando o vidro e vendo. A palma da mão fazendo círculos, desembaçando. Crendo que era mentira, jurando que era mentira. E nem era. O casco na porta, no cimento grosso, nem era mentira, nem era ilusão, nem era nuvem, miragem que ele não era, nem filme. Era um unicórnio! O chifre, as orelhas, o rabo, a brancura do corpo, tudo de unicórnio. Meu irmão dormindo no beliche, na cama de baixo, a boca aberta de quem se afoga, busca fôlego, o nariz meio tapado que ele tinha, buscando fôlego pela boca. O jeito dele dormir de lado, a boca aberta e o fio de baba descendo na fronha, empapando. Meu irmão dormindo, meu pai, minha mãe, a casa dormindo e eu acordado, eu ali, com os olhos vivos, acordado da silva, vendo o unicórnio, grande e branco, gordo, os olhos luzindo, o rabo de espanador balançando, as ventas abrindo, dilatando, fungando o cheiro da casa. A minha ideia de abrir a porta. A ideia que era: eu descendo, abrindo a porta, a chave girando o ferrolho, a porta abrindo, o unicórnio vindo com a boca, os dentes, a língua nos meus dedos, lambendo. A língua áspera, lixa de madeira, lixando. A língua nem seria nojenta, nem podre, asquerosa. Língua de cachorro é que era, de unicórnio não.  Eu pensando isso, pensando e já fazendo, já executando. O unicórnio na minha frente, lambendo minha mão e agora falando. Ele falando, dizendo o nome dele, de onde vinha, porque vinha e não ficou, porque chegou. Disse que havia um fazendeiro mal encarado, bigodão de foca, nariz de tucano, aquele nariz de ponta para baixo, grandão, de ponta para baixo. O homem querendo pegar ele, capturar e cortar o chifre, vender o chifre. Só por maldade, que o chifre não valia nada, a banda de um conto o chifre não valia. Nem fazia mágica, nem pente, nem dominó. Que ninguém iria acreditar em chifre de unicórnio, comprar chifre de unicórnio à toa. O chifre só servindo mesmo para guiá-lo no escuro, brilhando no escuro, guiando. Levei o unicórnio pra dentro de casa, entra, e ele foi entrando, lambendo minha mão com a língua áspera e entrando. Nem fez cerimônia, nem tropeçou nos móveis, na cristaleira, no cinzeiro, na carranca, em nada ele foi tropeçando. Era lambendo minha mão e entrando. Meu pensamento que ele iria me morder, a qualquer momento fechar a boca, me morder. Chagamos na cozinha e ele sentou a mesa. A pessoa nem podia imaginar a coisa assim, uma coisa dessas, dele ir sentando a mesa, sem mais nem menos, sem medo de sentar no rabo, de quebrar a cadeira, sentar em falso. Sentou a mesa e foi virando gente. Virando gente, virando gente. Pisquei bem os olhos pra ver melhor aquilo. Se estando sentando parecia gente ou se era gente, deixando de ser bicho. De ver a minha perturbação ele se antecipou, disse que dentro de casa virava gente mesmo, bicho só ficava do lado de fora, unicórnio era da porta pra fora, dentro era gente, falava, sentava, comia bolo e tomava café, igual a todo mundo, igual a toda gente. Mas o chifre permanecia na testa. O chifre brilhoso naquele escuro da cozinha. O chifre era mesmo que um cascão de sorvete, virado, pregado na testa, virado e brilhante. Posso tocar? Ele balançou a cabeça que sim, comendo bolo e balançando a cabeça que sim, a educação de não falar com a boca cheia, o medo de a mãe ver, de dar uma tapa na mão, reclamar. Nunca fale com a boca cheia, coisa mais abominável. Minha mãe falava, a mãe dele falava também. Decerto que a mãe de todo mundo fala, senão abominável, mas nojenta, coisa mais nojenta, falar com a boca cheia, a pessoa vendo as migalhas na boca... Ele já meu amigo, o unicórnio que era gente já meu amigo. Não é o que ele era, meu amigo, de sentar a mesa, comer bolo, tomar café? Meu amigo que ele já era, deixando eu por a mão no chifre, a mão clareando com o brilho do chifre, o vermelho do sangue, o vulto dos ossos, aparecendo. Puxei o chifre mais para perto e depois só ouvi o barulho. Meu pai correndo, me pegando nos braços. Apontando o revolver pro corpo no chão. O revolver ainda fumaçando, o fio de fumaça subindo, serpenteando.  

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