A FORMIGA, O FORMIGUEIRO, A MÁQUINA

Foto: Fábio Jalowski


Saiu do buraco. Os mil túneis que existiam no buraco, pra que ela saísse. Saiu. Os pulmões cheios de ar. Havendo pulmões em formigas, estavam eles cheios de ar fresco, ar novo de bons ventos. Primeiro apareceram às antenas, movimentando-se para lá e para cá, certificando que poderia o resto do corpo sair sem correr perigo. Lá no passado disseram que as antenas captavam estações de rádio, e já para hoje em dia captavam sinal digital, via-satélite ou digital, ou mesmo os dois, que dizem que os dois acabam sendo um só, ou um ou outro são um só. Gostava de sentir o sol esquentar a pele, se é pele, película ou couraça, que a formiga tem; que ela possui. As outras formigas viviam a ralhar com ela, dizendo que ela acabaria por se queimar, tanto a viver no sol, a pisar o chão quente e a beber água muito morna que ela vivia. Como vício era assim que ela vivia. Assim: já impregnada, rebelde até. Vá uma criatura dizer que formiga não bebe água e ela o desmente na hora, se não desmentir pela boca, desmente pelas antenas, interferindo os sinais de rádio, desmentindo digitalmente, via-satelimente, satelitimente, isso, essas coisas as quais se enviam sinais. Ou não desmente porque não a entendemos. A fala dela não entendemos e, não entendendo, não há episódio desmentido. Não é coisa exata o que eu digo, é só coisa dita, falada, escrita. Água existe em formigueiro, sabia? Quem não sabia agora sabe! Ouviu, leu e agora sabe, retendo a pessoa sabe, passa a saber. Um batalhão de formigas fica com o serviço de cavar o poço e bombear a água pra várias galerias. De estarem a cavar o poço é que elas não param de tirar terra do buraco. Tirar terra e bombear a água do poço. Têm formigas que nunca saem do formigueiro, nunca estão a botar a cara pra fora, tão ocupadas que ficam a fazer isso: a bombear água para as várias galerias, os vários dutos. Do meu tempo de menino fiquei a prestar atenção a isso: de haver água no formigueiro. O trator passava aplanando a nossa rua. Ou era aplanando ou era aplainando. Ainda não sei. Todos os anos o mesmo trator, as mesmas letras: GP, 385, New Holland. Nome que ninguém sabia pronunciar direito. De um ano pro outro as letras ficavam mais claras, arranhadas, a se apagarem. Daí que a gente só chamava o trator de máquina, que ninguém sabia chamar New Holland e, porque ninguém sabe, ninguém queria chamar de trator. Era máquina, como se fosse um batismo de bicho, de monstro. Coisa meio dinossaurica, jurássica, pré-histórica. Acho que chamávamos do tempo das cavernas. A garagem da prefeitura, a caverna dela. A pá larga da máquina raspava a terra pelo fundo. Os adultos tinham um cuidado pra gente não sair correndo na frente da máquina, cair e ser cortado ao meio pela pá de aço, revirando a terra e trazendo a tona os brinquedos perdidos: as ximbres, os piões e os soldados de plástico. Havia uma lei: quem achasse um pertence de outro disputaria com ele, numa queda-de-braço, o direito de ser o novo dono. Queda de braço ou quebra de braço? Não sei ainda. Tinha os filmes do Stallone! Uma hora ele era Rambo, matava o povo, derrubava helicóptero, outra hora ele era Rock, apanhava no ringue, mas acabava vencendo, a boca troncha dele chamando a esposa, Adrian, Adrian. Uma vez ele foi Falcão, dirigia uma Scania, usava boné e apostava queda de braço, ou queda de braço ou quebra de braço, ainda não sei. Saíamos na rua apostando quem ganhava, apostando quem era o Falcão da Gervásio Pires. Virávamos o boné pra trás e tudo, igualzinho a ele. Os adultos faziam caretas, riam da gente. Havia o truque de esconder na cueca, o que a gente achasse. Esconder na cueca: ximbres, pião, soldados de plástico, moedas que a carestia havia comido o valor. A carestia! A gente nem sabia o que era. Só se ouvia falar dela, a fome dela a comer as coisas no mercado, na feira. Cid Moreira falava e meu Vô respondia que estavam jogando a pá de cal nos pobres. Havia o truque de esconder na cueca e se fazer desentendido, ficar tonto, sair do sol quente e não voltar mais pra rua. Das raspadas que a máquina dava na terra surgia o formigueiro. Parte dele levado pela pá larga e outra parte descoberta, outra parte a mostra, as mil galerias entrando para a terra. A gente enfiando pedaço de arame, afirmando a fundura, confirmando-a. Tínhamos de entendimento que as galerias acabavam entrando para debaixo das casas, no fundo das casas, dos alicerces. Parecia-nos que se um dia as formigas se rebelassem, podiam muito bem sair levando a nossa casa de lugar, de seu lugar de casa fincada, casa erguida: cimento, tijolos, ferro, brita, reboco... Alguns até achavam absurdo a idéia das formigas saírem a levar nossas casas para outro lugar, outra rua, outro bairro, mas quando se argumentava da força de uma formiga, capaz de carregar uma folha bem maior e pesada que ela, de carregar nas costas um palito de fósforo, perna de gafanhoto, bituca de cigarro, por argumentar assim, argumentar com isso, é que alguns acabavam por nos dar razão. A formiga saiu do buraco, os mil túneis que existiam no buraco, encheu os pulmões de ar, havendo pulmões em formigas, e nem bem deu um passo a língua a puxou para a boca. O tamanduá, mascote nosso, escondido atrás da moita, espreitando. Nem bem chegou perto, esticou a língua e era uma vez uma formiga. Outras tantas tiveram o mesmo fim, para que nossas casas permanecessem onde estavam, erguidas, fincadas.

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