Foto: Paulo Ferreira


O problema aqui é a sujeira. A imundície. A crosta. Sabe aquela crosta que não sai, gruda, cola, emprenha. Emprenhou, criou feto, enraizou. Limpo! Se o senhor me perguntar, eu digo que limpo. Varro, esfrego, pego uma espátula, raspo, raspo, raspo e o grude fica lá. Vivendo. Cada um que chega aqui deixa um pouco de si, o ruim de si, o sujo, asqueroso, de si. Nem tanto os cachorros, os cachorros não. Bicho é coisa limpa! Cachorro, gato, coelho, coisa limpa. Homem que é porco. A infância na lama, na rua, prostíbulos. Homem é coisa para mil banhos, esfregões, bucha, escova nas unhas. Mulher já não é tão suja. Já não faz esse estrago. Não é mesmo, não acha que mulher é mais limpa? Vai da criação. Homem é criado pra ganhar o mundo, rasgar a cara, costurar o couro da cara, mostrar a cicatriz da cara. Cicatriz em homem é charme, força, bravura. Cicatriz em mulher é um aleijo, tragédia, fim de mundo, pode vê se não é. Mulher é criada pra abiscoitar a casa, cuidar, zelar, varrer. O que é que o homem faz, que já é do homem fazer, o que é? Chegar em casa e trazer a sujeirada do mundo todo, não é não, não é mesmo? Limpe os pés, não já ouviu isso, limpe os pés, limpe os pés... Pois não é capricho nosso não, frescura, frescurite. Casa tem que ser um lugar limpo, conforto e limpeza. A imundície que fique de fora. Homem não entende isso, diz que é frescura, frescurite, toma uma e quando sai do bar diz que vai encarar a fera em casa, a megera, cascavel. É dessas que a gente leva na cara. A gente leva nas fusas dessas pra pior. Deixar no gosto do homem a casa vira um chiqueiro, curral, estrebaria. De pequena que eu me acostumei com a limpeza. Minha vó, minha mãe, irmãs, todo mundo fazia uma coisa na casa. Os homens saiam, pra ganhar sujeira, e a gente limpava, lavava, esfregava, passava. A casa ficava um brinco, as panelas, queria que visse, tudo areada, brilhando, refletindo que era só espelho, que era só prataria; as panelas de alumínio. Roupa sempre foi bem passada, não ficava uma dobra, um engelho não tinha, não ficava, nunca ficou. O banheiro era a parte que me cabia, eu de pequena, o banheiro meu. Por isso que eu sei que não tem lugar que mais se limpe, que mais se suje. Que não tem jeito limpar que não se suje, que sujam. Homem é quem mais suja, quem mais não tem cerimônia. Não tem, não faz. O senhor me vendo assim: desse jeito meu, me dá quantos anos? Sessenta não é? Todo mundo só me dá sessenta, cinquenta e cinco, quando querem ser generosos. Quarenta, tenho quarenta. Quarenta e um. Estou acabada, estou me acabando. Vim trabalhar aqui ainda moça, os homens soltavam gracinha, histórias de amor, que teria vida de madame e tudo. Unha feita, cabelo escovado, vestidos, sapatos, viagens. Só fizeram foi se aproveitar, sabia? Tiraram a inocência, os sonhos, um risinho que eu ainda trazia na cara e só, um risinho no canto da boca, era o que eu tinha e foi embora. E tudo que sobrou só fui eu, essa sessentona, essa coisa que o senhor vê e sente pena. Nem precisa negar, sei que sente porque vejo nos olhos, na boca do senhor, assim: torta, assim: de lado, desprezando. De vez em quando um homem daquele aparece por aqui, usa o banheiro e nem olha na minha cara, nem pede desculpas, nem passa vergonha, nem fica vermelho, nem fica sem jeito. Antes ficam mais é com nojo de mim, sabe nojo? Ter se misturado comigo, nojo, nojeira. De vez em quando um aparece aqui e nem dá a descarga, aí então eu vou lá e me vingo, puxo a descarga que é mesmo que puxasse um tapete, mesmo que puxasse um gatilho.    

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