EVITANDO CHEGAR

Pintura: Van Gogh


Era voltando do colégio que ele vinha. Passo miúdo, vagaroso. Cabeça de vento que ele tinha, que ele nem pegava as matérias. Nem quem havia colonizado o Brasil, nem as contas de mais, nem as contas de menos, nem nenhuma das quatro operações. Dos adjetivos, os verbos, o português todo, ele não pegava. Passarinhos que pousavam na mão, nem bem ele fechava, passarinhos batiam as asas. Voltando do colégio que ele vinha. Nem chegava ainda, só vinha. Só vindo. A mochila pesada dos livros, as tantas tarefas que a professora marcou. O dedo da professora rodando no ar, marcando a tarefa. Todo mundo enraivecido, todo mundo a querer sair, chegar em casa, ligar a TV, assistir  X-men. Volverine. Todo mundo queria ser o Volverine, arranhar, enfiar as garras, destruir. Um menino deixou as unhas crescerem, mas nem foi a mesma coisa, o mesmo efeito nem foi, nem ficou Volverine. Ele nem tinha presa de sair, chegar em casa. Ele vindo, todo vagaroso. Vindo pra casa. Indo pra casa. Havia medo de chegar em casa. Havia? Só mesmo havendo, só mesmo se havia. Os passos miúdos dele, lesminha evitando chegar. Pudesse até esticava o caminho. Sabe elástico, esticar o elástico, esticar a rua. Espilongá-la. Pudesse ele fazia. Ele faria. A casa a se aproximar. Toda ela branca, caiada: paredes, portas, janelas, as telhas brasilites caiadas também, a evitar absorver o sol, a quentura do sol, o forno que ficava, o suor escorrendo no pescoço, a blusa colando no corpo, a mão peguenta. Mais em baixo na parede a cal era suja. Chovia na terra, a terra respingava no pé da parede, sujava. Daí então ele vinha chegando, ele chegava. A vida toda que durou a chegada. A demora da vida toda, do sol que vinha atrás lhe passar a frente. Abria a porta: ninguém não havia, só ele e a casa. Ele e a casa e as tarefas. A professora pedia que fizessem as tarefas, a voz dela ficava na cabeça, a voz dela ficava ribombando, mosca na carniça, zumbindo, muriçoca, cigarra cantando, zizizi. As tarefas doíam na cabeça, doíam na vista, doíam na coluna. As tarefas enunciavam: tal coisa tal coisa tal coisa, foi assim assim e assim. Ele relia, respirava e relia, sublinhava, coçava a cabeça, apertava os olhos, abria no dicionário. Um dia abriu o dicionário e achou de primeiro a palavra. Degredo, ainda lembrava a palavra: degredo. Toda vez que abria o dicionário queria achar de primeiro, duas, três, cinco, oito vezes ele abria, dez vezes e nada de achar a palavra. O jeito era procurar, estaria mais para a frente ou mais para trás. Acabava a tarefa ficando pra depois. Ninguém morreria com isso. Nem a professora. A professora teria mais o que fazer que ficar pensando se ele fazia a tarefa quando chegava em casa. Ele ficou pensando se ela o imaginava fazendo a tarefa, se ela o via, se o enxergava. A voz dela ele ouvia, a voz ribombando. Se então ela entrasse na mente dele. Visse, pelos olhos dele?

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