A voz das plantas e a vida da lápide na poesia de Helder Herik




Os temas das telas do pintor Vincent Van Gogh não eram novidade na pintura quando ele surgiu. Sua genialidade ― infelizmente, só postumamente reconhecida ― foi identificada, sobretudo, no olhar dele sobre as coisas e em sua forma singular de representá-las. As séries dedicadas às flores são os exemplos mais contundentes de seu talento artístico, que influenciou fortemente toda a produção das vanguardas do início do século XX. Entre essas séries estão as pinturas de girassóis, com destaque para a tela “doze girassóis num vaso”, a mais famosa. É um detalhe dessa pintura que ilustra a capa da obra poética As plantas crescem latindo (u-Carbureto, 2009, 112 p.), título que me despertou a curiosidade quando vi um exemplar na mão de alguém durante a primeira FreePorto (2009), festa literária ― cheia de boas surpresas ― para a qual o autor do livro tinha sido convidado, o jovem poeta de Garanhuns Helder Herik. A assonância desse nome também me chamou a atenção, não apenas porque me fez suspeitar de um pseudônimo (e não era), mas também porque me lembrei de um personagem da escritora Hilda Hilst, nomeado a partir de uma reprodução irônica da repetição da letra “h” em seu próprio nome. A apresentação do livro, assinada pelo autor, esclarece o título, mas, ao invés de nos entediar com um texto estraga prazeres, mergulha-nos desde logo no lirismo da obra, conduzindo-nos por uma afetuosa lembrança relatada sem as restrições adultas sobre os encantos da imaginação infantil. A epígrafe da obra traz um fragmento de O elogio da loucura, de Erasmo de Rotterdam, e evidencia uma postura de despojamento e abertura que o leitor é convidado a assumir também, pois o fragmento sugere que se procure na pilhéria um fundo de seriedade. Assim, há na poesia de Helder Herik um recorte de vozes cotidianas que busca iluminá-las no intuito de que se perceba melhor a sabedoria que carregam. A citação de Rotterdam na epígrafe e a citação de Van Gogh na capa ― o pintor era acometido de sérios problemas psiquiátricos ― apontam também para aquela “loucura” que recusa um contato com a realidade em que a imaginação criativa esteja ausente: “[...] as nuvens se partindo / as nuvens se juntando / partejuntapartejuntada / formavam dragões (cavalos) monstros / hiatos… [...]”[1].

Todas as alusões feitas no início dessa obra de Helder Herik, sobretudo no texto de apresentação, já capturam a nossa cumplicidade na aventura de suas explorações poéticas e a sensação é a de estarmos adentrando o sonho de alguém. Sua lírica se realiza no lúdico, nas brincadeiras com a polissemia das palavras, com a ressignificação de imagens de expressões cristalizadas e com as grafias. Portanto, a elaboração estética de As plantas crescem latindo ― segunda publicação poética de Helder Herik  dialoga com o que é familiar para transcendê-lo através de uma construção imagética particularizada no tratamento linguístico: “[...] o Serumano mata a fome / e / morre de fome / o Serumano constrói casas / para prender / os Seresumanos que eles fizeram”[2].

Como fez Van Gogh, construindo suas paisagens singulares através de pequenas pinceladas,Helder Herik constrói boa parte do universo poético de As plantas crescem latindo com poemas curtos, chegando ao minimalismo de apenas um verso, dialogando com a urgência discursiva demandada pelas ferramentas da internet, como no poema “Capacete”: “tem um pouco do que pensamos na espuma”[3].

O poeta não busca uma língua idealizada, mas antes evoca sua realização efetiva, singularizando-a através da exploração de suas potencialidades semânticas ou imagéticas. Tal estética se estende por seu livro posterior, o terceiro, intitulado Sobre a lápide: o musgo (u-Carbureto, 2010, 72 p.), em que temos um bom exemplo disso nos seguintes versos:
― lesma pedaço de língua de ave
da ave voar e da lesma lesmar
lesma luze no muro o rastro
o muro babado dela escalar[4]

Como vemos nesse fragmento de Sobre a lápide: o musgo, a poesia de Helder Herik alcança um contato voluptuoso com a linguagem, um aspecto especialmente notável nessa obra. Vejamos as palavras do próprio autor sobre sua construção estética ― a citação é longa, mas proveitosa:

[...] não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria de ter eu apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, rede ou tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, piscar de olhos…[5]

De fato, esse livro se divide em várias partes em que se verifica uma mudança de dicção em cada uma delas. Essa postura de “caçador” da poesia se traduz em imagens como estas: “[...] a janela estilhaçada da pedrada / ― quem que atirou a pedra? / ― ela foi sem sacudimento ela sozinha foi indo / indo e plect / fez teia de aranha”[6]. Aqui, a evocação de um universo infantil, lúdico, explicitado em As plantas crescem latindo, continua sendo perseguida em Sobre a lápide: o musgo enquanto fonte de inspiração poética. Dentro dessa perspectiva, a poesia então se reveste de elementos da fábula, em que os animais e as coisas ganham voz, sentimentos e gestos humanos: “chovia / a chuva assanhada desenterrava sapos / chovia depois vinha o sol alegre / se abrindo…”[7] e “a hora da faxina / é pego o Tapete / nas extremidades sacudido / até confessar / a sujeira (escondida)”[8].

Em uma carta ao seu querido irmão Theo, Van Gogh expressa sua inquietação e angústia em representar artisticamente a paisagem que vê do asilo de Saint-Rémy-de-Provence, onde estava internado, e conclui:
Porém, é muito difícil, muito difícil. Mas isso me convém e me instiga a trabalhar plenamente no dourado e no prateado. E um dia talvez eu consiga realizar uma impressão pessoal disso, como os girassóis em amarelo. Quem me dera ter alguns deles no outono ― mas esta meia liberdade frequentemente impede que a gente faça o que, entretanto, a gente se sente capaz de fazer.[9]

As paisagens de Helder Herik também parecem florescer a partir de inquietações estéticas, mas também existenciais, expressas através da matéria comum da vida e da linguagem. Como nas telas de Van Gogh, tudo ganha movimento, as plantas chegam a latir e a estagnação da lápide é rompida pela vida do musgo.


[1] Sessão da Tarde (p.110).
[2] Ecce Homo (p.35).
[3] P.23.
[4] A Branda Lesma, A Farpa (p.16).
[5] Apresentação (s/p).
[6] Líquido Embutido, Contido (p.21).
[7] Chuva Baixa Poeira (p.25).
[8] Do Tapete Até a Sujeira (p.29).
[9] Tradução nossa: “Mais fort difficile fort difficile. Mais cela me va et m’attire de travailler en plein dans de l’or ou de l’argent. Et un jour peutêtre en ferai je une impression personelle comme le sont les tournesols pour les jaunes. Si j’en avais eu cet automne.– Mais cette demi liberté empêche souvent de faire ce qu’on sent pouvoir cependant.” Texto disponível em:
http://vangoghletters.org/vg/letters/let806/letter.html#translation


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Johnny Martins* (João B. Martins de Morais) é licenciado em Letras e Mestre em Teoria da Literatura (UFPE).  Tradutor, crítico literário, professor de inglês e de literatura de expressão inglesa, com foco na produção literária da Inglaterra e dos Estados Unidos.
Tem trabalhos de crítica literária publicados. Ensinou língua inglesa na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda e foi professor substituto no curso de Letras da UEPB ministrando disciplinas de literatura inglesa e norte-americana do século XX, sociolinguística da língua inglesa e teoria e prática da tradução.
Atualmente é doutorando em Literatura e Cultura pelo Programa de  Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalhando com epistolografia, erotismo na literatura e narratologia.

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