Inveja da Lagartixa

Pintura: Paul Cezanne

Reparo comigo e vejo que tenho inveja da lagartixa. Dela subir a parede, dela ir além da janela, além do teto, dela sumir no mundo e eu ficar. Os pés no chão, o corpo sobre os pés. Fincados. Subir a parede é a forma que a lagartixa achou de voar. Nem é de querer ser uma lagartixa, a inveja que tenho. Que inveja é querer ser, inveja é querer ter. Inveja é ficar mastigando borracha. A inveja é de querer sair por aí, pelas paredes, os muros, os telhados. Invejo é não ter que subir degraus. A chatice de subir degraus, sabe como é? A chatice toda deles se encurtarem quando fazem uma curva. A gente subindo e eles curvando, eles encurtando. O pé da gente nem cabe, já reparou, já viu? O pé da gente nem cabe e subimos de ponta de pé, de ponta de pé como quem vai assustar alguém, roubar alguém. Uma mola. A gente subindo os degraus, a gente rodando e subindo parece mais uma mola, os degraus se a gente reparar, o clínico do olho reparando, o olho sanitário verá que os degraus, assim: rodando, são uma mola. Lagartixa pega costume de morar dentro de casa, atrás do guarda-roupa, atrás dos quadros: o quadro de Cristo, o quadro de Chaplin. Lagartixa pega costume de morar no medidor de energia. Entra lá de pequena, fica a comer mosquitos, a comer formigas, a comer as moscas e as aranhas. Depois engorda e o corpo balofo não passa mais pela fresta. Então com o tempo ela morre, não é verdade? Não há quem aguente viver só num buraco. Nem gente, nem criatura. Ambos estão sempre a querer sair do buraco. Lembra da cantiga: o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Bem antiga, não é? Lembrou? Já vi lagartixas se alimentarem, elas comerem. Comiam farelos e miolos de pão. Miolos de ratos elas também comiam. Os ratos pegos na ratoeira, os miolinhos deles saltados da cabeça. Os miolinhos deles no chão e as lagartixas a comerem e lamberem o chão. Também ficavam a comer as fórmicas. A gente da casa deslocando um móvel a pintar a parede, e as lagartixas correndo, espantadas com a desapropriação. A gente constatando o rombo na fórmica. Comprava-se veneno, quero vê agora se não morrem! Eu derramava tudo. Despejava na pia, vaso sanitário, jardim. Queria as lagartixas por perto, queria-as em casa. Elas pelas paredes. Havia casos das lagartixas comerem formigas. Fórmicas primeiro, depois as formigas. As pobres das formigas ficavam a subir a parede e a lagartixa esticava a língua, puf, pegava. Chupava um pouco, como se estivesse com uma bala  a embolar na língua e depois engolia.

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