A POLPA DA FRUTA POÉTICA DE HELDER HERIK

por Luciano José*


Comentar a produção de um determinado autor nos dias atuais é manter viva uma tradição bastante cultuada nos meios artísticos de outrora: o exercício da crítica feita não por pessoas especializadas, mas entre os próprios pares que produzem arte. Na ausência da crítica acadêmica, resta o diálogo recíproco e sincero entre os que se aventuram na criação.

A crítica é imprescindível por vários motivos: de forma especial porque é através dela que tomamos consciência de uma dimensão mais ampla da obra produzida. Sem a crítica não há como ser questionado, pensar em melhorar na produção, admitir certos limites e também constatar méritos. Do mesmo modo, a autocrítica é fundamental. Ela impede a precipitação em querer publicar, promove o aprimoramento do texto, permite o distanciamento necessário para não repetir erros, vícios, evita a ingenuidade ou o caminho da pretensão.

A propósito disso, podemos pensar na produção poética de Helder Herik, pernambucano da cidade de Garanhuns que, além de investidas na área da educação como professor de literatura e filosofia, começou nos últimos anos a conquistar um espaço no campo da criação literária, tendo lançado três livros: Amorte (2008), As plantas crescem latindo (2009), Sobre a lápide, o musgo(2010).

Percebemos que há na sua produção, como na de muitos que concebem a arte como uma forma superior do espírito capaz de encantar e transfigurar os sentidos, um conjunto de elementos que servem para definir um estilo pessoal e ao mesmo tempo a presença da polpa da fruta poética a dialogar constantemente com o que é residual.

Sua escrita é marcada por indagações e conteúdos próprios do pensamento filosófico, sobretudo quando discorre sobre temas como a relação contraditória dos homens com o real, com os avanços tecnológicos e genéticos, com o suprassensível e com a busca incessante de conhecer a si mesmo. É sugestivo pensar a esse respeito no poema capacete, do livro As plantas crescem latindo, quando afirma que “tem um pouco do que pensamos na espuma”, afinal, se o ar é o que nos anima deve haver resquícios de pensamento no que respiramos. Por outro lado, Helder não foge do lugar comum dos poetas contemporâneos quando o assunto é fazer uma releitura do cogito ergo sumcartesiano. Para essa investida utiliza o niilista Schopenhauer e ataca: “eu penso / penso muito... / e caio”.

O ambiente perigoso e hostil das grandes cidades bem como o clima de incerteza que envolve a todos, inclusive os desavisados é revelado de forma sucinta no poema metrópole: “O homem esticou o braço / espreguiçou / e levou um tiro”.
O poeta encarna Nostradamus quando, diante de sua bacia, é capaz de prever o que ocorrerá no futuro: “a mãe nem precisará engravidar / basta abrir a geladeira e descongelar um filho / no micro-ondas”.

Utilizando-se da ambiguidade própria do fazer literário, descreve no poema a ação do prego sob alguma superfície, ao tempo em que o transforma em objeto fálico peculiar: “o prego / esse penetra / com a cabeça para fora / para dentro”. Do mesmo modo, ao dialogar com a língua do internetês cria um clima erótico-irônico no poema Historinha modernosa e sem vergonha (“você vai abrir a janela / clica e arrasta / depois inserir figura / (se a figura for grande demora um pouco) / subir / e / descer / na barra de rolagem / fechar por causa do vírus / e / pronto / tudo salvo”).

Há um ponto de convergência quando o tema está relacionado à identidade nacional marcada pelo processo de colonização, ou seja, o poema Colônia 1 (“naquelas naus / não havia WC / e fizeram por aqui”) parece desaguar no poema Brasil (“país da América do Sul / lá se puxa pouco a descarga”).

Por vezes, o poeta revela certo preciosismo, se considerarmos que toma a si mesmo como referencial, quando tenta explicar o fim do namoro (“ela era geniosa demais para mim / eu era genial demais para nós”) ou quando percebe o que ocorre ao passar diante de um poste (“às vezes eu passo e o poste pisca”). No entanto, entre o desejo de querer ser poeta de verdade e ser um poeta de mentira, a escolha recai decisiva para a segunda: um poeta “sem eiro nem beiro”.

Podemos destacar também na sua poética as recordações da infância, a cultura simbólica em torno dela e as personagens que marcaram seu desenvolvimento como ser humano, isto é, a recorrência ao passado serve como uma chave para abrir o intricado mistério que envolve sua personalidade. A poesia aparece aqui como sendo o recurso primordial para revelar o processo histórico-contraditório do ser. Pensando nisso, o poema Prata expressa um clima poético primoroso ao usar o recurso do inusitado, ou seja, a prata (moeda) perdida pelo menino transformou-se na lua prateada invocada pelo avô.

A esse respeito, o tema da infância é revisitado com admiração poética no seu livro de 2010 intitulado Sobre a lápide: o musgo. Nele o poeta percebe o grude como o musgo que demarca uma outra pele e que ao ser eliminado pelo banho desce pelo ralo junto com a infância. Do mesmo modo, na leitura que faz desse período da vida é capaz de notar a presença da lesma através do rastro gosmento deixado no muro, fazer uso de catacreses e criar imagens bastante sugestivas em expressões como: “o orvalho o suor da planta”; “o porco o focinho de tomada... espantando bichos de bico medo de tomar choque”; “se fosse de dente a galinha o fazia (o gogo) fio-dental”; “a chuva assanhada desenterrava sapos”.

No capítulo as coisas de casa, que trata da relação dos objetos domésticos com os homens, há uma brincadeira confusa e proposital de tornar as coisas cúmplices das artimanhas humanas. Ocorre que a sujeira acumulada no tapete (“sujeira no tapetão”) aparece como uma confissão após batidas sequenciais para torná-lo limpo. Ou o caso do fogão que, ao alimentar o grávido botijão por cordão umbilical (a mangueira), possui bocas abertas e pouco fala, só deixando escapar o gás.

Em suma, mesmo que Helder expresse uma preocupação em construir uma linguagem poética própria, percebe-se pelo caminho já trilhado que trata-se de alguém que se aventura nos domínios da língua com armas bastante eficazes para capturar seu aspecto ambivalente, imagético e lúdico. Cada publicação que se atreveu a lançar imprimiu uma face única, cheia de encantos e contradições, captando o essencial e revelando o residual do caldeirão que compõe a vida, o mundo, as pessoas, as lembranças, os costumes, as ideias. Com uma visão apurada sobre aquilo que ocorre em torno de si é capaz de traduzir em linguagem poética o que poucos conseguiriam dizer, mas muitos gostariam de sentir lendo seus poemas. Portanto, se para alguns arqueiros o alvo da poesia é ensinar deleitando, Helder Herik parece estar no caminho certo.


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*Luciano José é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas, professor da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL – Campus III) e poeta com livros publicados. 

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