PAI E FILHO

Pintura: Paul Cezanne

O olhar sério, o braço erguido, apontando a oficina. “Quero te mostrar uma coisa, poderia ter mostrado antes, mas você não entenderia.” A certeza de que o filho não entenderia o fez sorrir num canto da boca. Estava certo que a idade chegava, estava a lhe fazer sábio. Pôs a mão no ombro do filho, ave ainda sem penugem, e caminharam até oficina. A mão no ombro, a guiar e a dosar a caminhada, a mão no ombro a dizer que eram amigos, estavam próximos (...) Foi preciso usar lubrificante no cadeado. “Está quase abrindo, quase pronto.” Calculou mal a força e a porta abrira num estampido. Receou que o filho o achasse imprudente, inábil. E não era isso, um homem que só vivia entre petições e ofícios, um homem enfurnado em cartórios e, quando fora deles, vivia sempre a pedir favores ou a pagar por tarefas banais, trocar a resistência, o botijão, o papel de parede. Um inábil, o que era. “Entre,” ele disse. E aquele “entre” serviria também para mostrar quem é que estava no comando, que o estampido da porta e o que viesse estava dentro da normalidade (...) Olhou demorado pro filho. O olhar demorado a lembrar que o seu pai fazia o mesmo, um olhar que fuzilava, repreendia. Olhava o filho e frustrava-se. Que possuía o seu pai com o olhar que ele não possuía? O menino é que era desligado. A calça rasgada não era um desleixo, o cabelo despenteado, o tênis sujo, que era aquele tudo? Um desleixo, pois sim que era. “Guarde isso e entre”, ele disse, agora mais veemente. O filho quis dizer alguma coisa. Sempre querem dizer alguma coisa, estão sempre se segurando. A boca aberta, como que iria dizer. Não disse nada, entrou. “Tudo aqui é muito velho.” O garoto concordou, a cabeça balançando. “Está bancada é mais velha que você e eu, juntos. Esse martelo aqui, deve ter a minha idade, o serrote...” O menino agora mal ouvia. A mão vacilando no bolso. “Guarde isso, já falei”. Ele quis falar, a boca aberta, falou: “mas”. O que disse foi, “mas”, e então o pai dissera “mas nada, mas coisa nenhuma”. “É importante”. “Importante nada”. “Criaram um fake, é caso de vida ou morte”. “Besteira”. “#Hackearamminhaconta”.  “Agora escute”. “Mudaram a senha”. “Agora veja aqui”. “Vão me deletar”. “Uma beleza, não é? Seu Avô que o fez, entalhou todo em madeira de imburana, trabalhou seis dias, no sétimo ele descansou.

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