Foi-se-embora

Foto: Lina Marano

“Ele subiu aos céus, está em casa com os seus da família.” Assim é que me passaram do final do filme: do ET ir-se-embora. Fiquei em dias de emburrado com isso. Que muito bem um daqueles ETs podia me visitar e vir morar comigo. Muito eu queria que um viesse. Havia beliche no quarto, havia frios na geladeira e os quentes fumaçavam nas panelas. Havia cobertores, banheiro — se fosse ele fazer uso — quintal e árvores em tempo de frutas.

Mas o ET foi-se-embora. O muito pouco que precisou, que foi apenas subir na bicicleta e partir. Nem houve nave, nem raio, nem estrondo. De precisar precisou somente uma bicicleta e uma lua cheia. E foi-se-embora.

Como não queria eu que se-me-viesse morar o ET logo fosse-embora, furaria os pneus de sua bicicleta, partiria a corrente das coroas e o aço dos freios. E se isto parecesse um mal a mim é que pareceria um bem. Pois não me caía à idéia do ET ficar a voltar para casa. Que sabia eu era que casa nenhuma existia no céu, de todas as casas plantadas no chão que eram as que existiam. Quando é que volta o ET? Eu que perguntava. “Não mais ele pode, foi para o céu. Lá é que ele fica a morar, já te falei.” E assim me diziam, a tranqüilidade de assim me dizerem “foi para o céu...” E nem lhes passava pela cabeça que o ir para o céu era o morrer, como todos que estavam lá no céu, estavam por aqui todos eles mortos.  

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