Mal e Bem

Foto: Laura Corrêa


Ocorre de a cultura suruuarrás logo resolver as artimanhas do mal. Isto se dando num exercício de que o vendo depressa o corta pela raiz. Acontece aos suruuarrás que se lhes nascem duas crianças de uma mesma barriga, e em mesma hora, uma delas haverá de ser dada em sacrifício.

Toma o pai a criança aos braços e entra, as profundas da floresta (de onde som humano não o chegue e nem de lá, se emitido, chegue donde saíra) e desfere o fim da criança, que pode ser enterrada, ainda que viva (a chorar), ainda que a mãozinha fique a segurar num dos dedos dos pai ou todo o corpo seu fique a espernear com o bolo de terra que lhe vem cair todo em cima ou pode ser de que o pai lhe venha a quebrar a espinha no osso de sua coxa ou simplesmente, e esta sendo a forma, não digamos ‘aceita’, mas a que mais tenha entrado em pratica, que é a do pai ir-se-embora, ficando o filho a própria sorte que é a um deus-dará. E a sorte  a lhe chegar, bem nos afigure, é a da morte: de uma onça em dias sem comer e do couro a entrar nas costelas ou de outro bicho com mais ou menos fome ou é ainda a morte pela chuva que chega a tapar os buracos da venta ou é a morte da sua própria fome ou do frio próprio das crianças sentirem. Estas últimas no que ficam a ser as mais demoradas ficam a ser também as mais sofridas. E ainda havemos de saber da morte por formigas ou cobras ou escorpião, bichos assim: que o piquem ou o ferroe.

E não fiquemos a pensar, como parece que já vinha nos ocorrendo, que o pai nem tenha sofrimento nesta prática. Tem-no. E muito. Mas o que este pobre esteve a fazer fora tudo ao seu contragosto, fazendo não o desejo de si, mas a vontade da sua tribo e sua cultura milenar. Não sendo o caso de seu filho o primeiro, nem o último na entrega de sacrifício.

Muito teria a se falar sobre as dores da mãe, que aqui sabemos serem as dores dela maiores que a do parto. Mãe esta que pela mesma cultura nada pode fazer, senão obedecer, lavando a criança em seu derradeiro banho que fora de água e lágrimas. Fiquemos só em dois casos, não nos judiemos muito. Que um é que a mãe, em saber que lhe está a sair uma criança e depois outra criança vindo atrás, trancar o útero e outras partes gestantes que lhe ponham pra fora a criança. Esta sendo um caso e o outro sendo da mãe correr a mata, apurando bem as ventas para farejar e desenterrar o filho, no lamento do pequeno já estar morto.

Tudo isto porque a cultura suruuarrás crê na alma do bem e na alma do mal e nascidas duas crianças de uma mesma barriga, numa mesma hora, uma delas haverá de ser dada em sacrifício. Que o que acontece é que uma criança é do partido do mal e a outra do partido do bem, não ficando nenhuma delas a escolher o querer ser do mal ou do bem, ficando a ser uma só coisa de uma coisa só. Ruim sendo a criança do mal, que se não for dada em sacrifício, crescerá a semear desamor, matando depois o irmão, que todos o amam, e a ele, o filho do mal, todos o desprezam, matando depois os pais, que lhe poriam a culpa de assassino do irmão, e matando depois toda a tribo pela mesma acusação que lhe poriam de assassino dos pais, o que de fato o era, no que acabaria sendo se morto não fosse ele.    

Postagens mais visitadas deste blog

Impulso

Suspiros

Paulo Gervais, Poeta.