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Mostrando postagens de Março, 2012

eu tomara ver

2 O corpo na beirada. Desse um vento o corpo cairia. O corpo caindo, agora. Décimo andar: pernas e braços, esperneando. Os pés subindo, as mãos escalando. Tivesse uma corda ela escaparia. Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito. O que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: fiz besteira, fiz besteira poxa. Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Teria aprendido numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar... Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica. Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro. Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração. Primeiro andar: espera o impacto. O corpo subirá dois centímetros, mas quem assistir não perceberá. Ossos se queb…

eu tomara ver

1 Urubu ficou olhando a Menina. A beira do olho dele: córnea, secreção e a menina. Ela dentro da pupila, a menina e o cristalino. Urubu se tivesse imã puxaria a menina pra ele. Ela já magrinha. A menina já no osso. Um gravetinho. A Vó dizia dela. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua. Vermelhinha, a língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, a orelha... Contra o sol a orelha ficava um vermelhão. Se falam da gente a orelha avermelha, a orelha queima. Aprendeu com a Vó, quando a Vó falava. A Vó só perguntava, só ordenava, nunca a velha falava. Às vezes acontecia. Urubu ficou olhando a menina. Ele na estaca, pescoço fundo, bico longo, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Ventava. Urubu fechava os olhos, livrando ciscos. Ventava. Urubu batia as asas, equilibrava. Ficava olhando a menina. Namorando. Se ela tombasse ele ainda esperaria uma semana. Respeito dele de que as carnes dela…

crônica 4

Primeiro o vendedor alertou que o gato era especial, depois que sendo especial seria muito caro. Especial porque não precisará comer, mastigar ou engolir nada. Nem água ele não precisa, nada, disse o vendedor. Comprei o bichano, que sendo caro e não comendo, com o tempo acabaria me saindo barato. Depois de um mês o pelo do gato caiu. Ficou somente o couro muito grosso e, de quando em quando, uma filepinha de buço. Um mês à frente e já não tinha ele mais o nariz de gato, neste lugar havia agora uma tromba. Em certas horas a tromba soava. Primeiro só os pratos é que tremiam, depois a mesa, depois a cozinha, a casa. Tempo mais a frente e já não tinha o gato as patas, as garras e o rabo ficara muito pequeno para o corpo muito grande. O corpo enorme, as patas muito grosas. Passou a morar no quintal. Lá aconteceu de um rato lhe aparecer no meio do caminho e o que fizera ele foi afastasse para um canto do muro e lá ficando a tremer, o que fazia, conforme o seu peso, que as árvores do quintal…

Crônica 3

O pé de seriguela crescera em bifurcação. Parecia os braços de Cristo, abertos daquele jeito, estendidos para o quintal, dizia minha Avó, em seu lamento. O lamento que era o pé de seriguela ser cortado por meu Avô. O pé de seriguela invadia o quintal vizinho, derrubava folhas e frutos. Meu Avô juntou os galhos cortados num canto do muro. Ele muito velho, suava na camisa e na testa. Minha Avó só lamentava, dizia que eram os pedaços de Cristo. Uma judiaria. Daí a semanas os galhos começaram a florir. Eles no canto do muro, florindo. O verde claro de novas folhas formavam pequenos buquês. Era a ressurreição, mesma coisa de Cristo, disse minha Avó. A figura de meu Avô olhava, abria um sorriso, explicava que os galhos da seriguela continham muita água, mesmo cortando a água se represava e os galhos custavam morrer. Mas em nada disso a minha Avó acreditou. Minha Avó muito cética e muito crente de si. Em dedo que se corte unha não torna a crescer. Galho cortado, seca e morre, vira cerca e fo…

Crônica 2

Havia o pé de seriguela. O Avô que o tinha plantado. Fez a cova, jogou o caroço, encharcou d’água, limpou o mato que nascia ao redor e a árvore cresceu em bifurcação. De um lado os galhos invadiam o outro quintal. Ficava o vizinho a saborear as frutas e a esposa a varrer o empesto de folhas. Um dia a esposa pegou ar. Viera reclamar das folhas caindo. As que ali caiam e as que o vento levava. Os olhos pequenos, a boca pequena, os dentes retos. Apontava para a árvore: varrer folhas, apanhar folhas, jogar folhas. Estou com a coluna que não me aguento... O certo é certo, disse meu Avô, cortando a bifurcação do pé de seriguela. Pela hora do almoço o esposo esculachara com a mulher. Abria os braços no vazio, pousava os braços na cintura. E agora mulher, e as frutinhas? O homem chegou-se para meu Avô, fez cerimônia e pediu umas seriguelas. Cavou uma carreira de buracos e as plantara.

Crônica 1

O quintal sempre foi o lugar dos pés de frutas, galinhas, cachorros e quinquilharias. Uma delas era o vaso sanitário que rachara e pegara cor de ferrugem. Não lhe demos fim por vergonha de colocá-lo na frente da casa, na espera do caminhão da limpeza o levar. Medo de que levassem as bolsas de lixo e o deixassem, como a dizer: do lixo mais íntimo cuidem vocês, não vamos até aí. Também havia, é bem verdade, a ligação de carinho. Quantas foram às vezes que ali nos aliviávamos e ficávamos a pensar na vida: uma dívida que tínhamos de pagar, o compromisso para a noite ou um do dia seguinte. Ali também adquiria-se muita cultura, pois sempre nos serviu de espaço a leitura. Quem, entre nós, vai negar que nunca utilizou o trono de poltrona? Quem nunca o utilizou para isto na certa queimou uma etapa de nossa evolução. Pobre primata. Guardamos aquele vaso numa sombra do quintal e lhe plantamos uma roseira. Uma galinha que ali criávamos, como que tivesse instinto humano, subia no vaso, rodava em s…