Crônica 1

O quintal sempre foi o lugar dos pés de frutas, galinhas, cachorros e quinquilharias. Uma delas era o vaso sanitário que rachara e pegara cor de ferrugem. Não lhe demos fim por vergonha de colocá-lo na frente da casa, na espera do caminhão da limpeza o levar. Medo de que levassem as bolsas de lixo e o deixassem, como a dizer: do lixo mais íntimo cuidem vocês, não vamos até aí. Também havia, é bem verdade, a ligação de carinho. Quantas foram às vezes que ali nos aliviávamos e ficávamos a pensar na vida: uma dívida que tínhamos de pagar, o compromisso para a noite ou um do dia seguinte. Ali também adquiria-se muita cultura, pois sempre nos serviu de espaço a leitura. Quem, entre nós, vai negar que nunca utilizou o trono de poltrona? Quem nunca o utilizou para isto na certa queimou uma etapa de nossa evolução. Pobre primata. Guardamos aquele vaso numa sombra do quintal e lhe plantamos uma roseira. Uma galinha que ali criávamos, como que tivesse instinto humano, subia no vaso, rodava em seus extremos (como que fazendo cerimônia) e defecava generosamente. Não limpávamos aquilo. Ficava a servir a roseira de adubo. 

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