Crônica 3

O pé de seriguela crescera em bifurcação. Parecia os braços de Cristo, abertos daquele jeito, estendidos para o quintal, dizia minha Avó, em seu lamento. O lamento que era o pé de seriguela ser cortado por meu Avô. O pé de seriguela invadia o quintal vizinho, derrubava folhas e frutos. Meu Avô juntou os galhos cortados num canto do muro. Ele muito velho, suava na camisa e na testa. Minha Avó só lamentava, dizia que eram os pedaços de Cristo. Uma judiaria. Daí a semanas os galhos começaram a florir. Eles no canto do muro, florindo. O verde claro de novas folhas formavam pequenos buquês. Era a ressurreição, mesma coisa de Cristo, disse minha Avó. A figura de meu Avô olhava, abria um sorriso, explicava que os galhos da seriguela continham muita água, mesmo cortando a água se represava e os galhos custavam morrer. Mas em nada disso a minha Avó acreditou. Minha Avó muito cética e muito crente de si. Em dedo que se corte unha não torna a crescer. Galho cortado, seca e morre, vira cerca e fogueira. Este que vemos ressuscitou.   

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