eu tomara ver

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Urubu ficou olhando a Menina. A beira do olho dele: córnea, secreção e a menina. Ela dentro da pupila, a menina e o cristalino. Urubu se tivesse imã puxaria a menina pra ele. Ela já magrinha. A menina já no osso. Um gravetinho. A Vó dizia dela. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua. Vermelhinha, a língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, a orelha... Contra o sol a orelha ficava um vermelhão. Se falam da gente a orelha avermelha, a orelha queima. Aprendeu com a Vó, quando a Vó falava. A Vó só perguntava, só ordenava, nunca a velha falava. Às vezes acontecia. Urubu ficou olhando a menina. Ele na estaca, pescoço fundo, bico longo, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Ventava. Urubu fechava os olhos, livrando ciscos. Ventava. Urubu batia as asas, equilibrava. Ficava olhando a menina. Namorando. Se ela tombasse ele ainda esperaria uma semana. Respeito dele de que as carnes dela se acabassem. Era ele velando o corpo, se ela tombasse. Ela magrinha. Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, desceria, o circulo que era ele descendo. As asas de avião. Limparia os ossos da menina, se ela tombasse.

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