eu tomara ver


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A menina juntava os pedacinhos de sabão: amarelos, laranjados, verdes e azuis. A menina acocorada na beira do riacho, esfregando sabão nas roupas, esfregando a roupa contra os dedos, enxaguando, batendo a roupa contra o lajeiro, torcendo. Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar. A menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada. A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro dentro da casa, serenando. A Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão. Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à menina, a neta. Coisinha de nada que ela era de longe. De perto sentia-se pena da coisa de nada que ela era. Piqueninha, magrinha que é só o osso. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó. A menina chegava-se para a cerca de arame, estendia a roupa. Recuava um passo, outro. Vote 25321 Joca Laurindo dep. Federal. A boca da menina soletrando. O riso de quem sabia soletrar, de quem não sabia o soletrado.

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