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Mostrando postagens de Junho, 2012

eu tomara ver

8 Que tédio, ela disse. Nada acontece, ninguém chega e ninguém morre. Ficou um tempo sem pensar nada. Um tempo suspenso, só dela. Daí a pouco a ficha caiu. Plim. Caiu. Quem é que não morreria, nem chegaria, nem morreria? E agora ela teve um pouco de vergonha, lasquinha de nada, porque lastimar que ninguém morria era certo indignar qualquer criatura. Ela se reprovou um pouco. Quem é que morreria era uma bobagem. Por certo que era. Juízo menina, tapinhas na boca, juízo. Olhou pro iphone, o net, o televisor. Tudo descarregado, sem área, sem energia. Que tédio. Ficar só a luz do sol era um tédio. Ninguém não chega nunca. Os dedos inquietos, vibrando para tuitar. #ninguémNãoChegaNunca, seria a frase descolada, o tweet. E se tivesse chegado algum e-mail importante? Havia essa preocupação. Nem lhe passava pela cabeça que ninguém lhe mandava e-mail. Ninguém que fosse humano. Homo Sapiens-sapiens. Só havia os e-mails de lojas: Submarino, Americanas, Ponto Frio, Magazine Luiza, Wal-Mart... E se …

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7 Estava para começar as aulas. Caderno, borracha e lápis. A menina colocaria aquilo num bizaco plástico. A logomarca do supermercado estampada, as alças novinhas de bolsa que ainda não levara peso. Você me arranjaria mais uma dessas, por favor. Ela ouviu a Vó pedindo. Ela ainda nem saberia para que era a bolsa plástica. Se a Vó não lhe entregasse ela nem saberia. A Vó tinha uns mistérios que só de quando em quando é que se revelavam. Então a menina ganhou uma bolsa e ainda outra coisa. Tem outra coisa! Era a Vó fazendo arrodeios. Outra coisa pra minha filha ficar bonita, adivinha! A menina olhava pra Vó, soletrava os olhos d’água, a boca fina, esticada, e nada de conseguir adivinhar. Ou não adivinhava ou não queria adivinhar coisa errada, esperar uma coisa e ser outra, magoar-se ou magoar a Vó. Sei o que é não Vó, sei não, o que é? Daí a Vó chegou ao guarda-roupa, fuçou no escuro, tirou uma caixa, abriu. Uma alpercata igual minha filha queria, lembra que minha filha queria? A menina l…

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6 Fazia as unhas: o esmalte vermelho no pincel, o algodão no palito limpando os excessos, um dedo distante do outro; secando. O cheiro a entontecia. O mundo girava e ela deitava na cama, no sofá, tapete, o que aparecesse. Disse a mãe: fico entontecida, em tempo de cair, abrir a cabeça, espalhar os miolos. No outro dia a mãe chegava, deixava em cima da cama o presente, os esmaltes. Tinha da Magali, da Rosinha e da Mônica. De quem são? Ela perguntou. São de quem? Então a mãe ouviu. A mãe nunca ouvia direito quando ela falava na língua dela. Seus meu bem, a mãe respondeu. Ela quase ficou alegre. Aquele momento, antes de perguntar de quem era, ela quase ficou alegre, mas então ela já era mocinha, já era moça, pois sim, todo mundo era. Da Mônica mãe? Passei da fase. Aquela menininha lá, game over, tempão já. Então a mãe disse da maquiagem que ela usava: não é da Mônica? pera lá, ela disse, fala baixo, não espalha, olha o mico, olha só o Kong. Correu pro quarto, trancou-se, emburrou-se. Só a…

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Trazia lenha nos braços. Lascas de paus, restos de cercas, galhos secos, gravetos. Os braços esticados, as veias dilatando-se, o suor escorria no canto do olho. Dava uma vontade de coçar. Seria uma mão de obra derrubar a lenha, coçar o olho, depois juntar tudo nos braços finos, os braços: uns gravetos. Então ela piscava o olho. Piscava, piscava e a vontade passava. Passava ou amenizava, ela nem sabia mais. A lenha entraria no fogão de cimento. Ela mesma que faria o fogo. A Vó já havia ensinado. É uma menina inteligente, a Vó dizia, minha filha é muito inteligente. Perguntava-se como é que uma criatura parecia tanto com a mãe. Cara de uma, focinho da outra. Não é assim que o povo diz? O povo fala muito. Tem coisa que o povo nem vê e fala. Diz que viu, diz que vê. A menina rasgava jornais, tacava fogo, soprava na lenha e ouvia a Vó. Já era pratica em fazer fogo. Inteligente. A Vó era só admiração. Até quando pensava na morte, pensava na menina. Que se morresse a menina já tomaria conta…