eu tomara ver


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Fazia as unhas: o esmalte vermelho no pincel, o algodão no palito limpando os excessos, um dedo distante do outro; secando. O cheiro a entontecia. O mundo girava e ela deitava na cama, no sofá, tapete, o que aparecesse. Disse a mãe: fico entontecida, em tempo de cair, abrir a cabeça, espalhar os miolos. No outro dia a mãe chegava, deixava em cima da cama o presente, os esmaltes. Tinha da Magali, da Rosinha e da Mônica. De quem são? Ela perguntou. São de quem? Então a mãe ouviu. A mãe nunca ouvia direito quando ela falava na língua dela. Seus meu bem, a mãe respondeu. Ela quase ficou alegre. Aquele momento, antes de perguntar de quem era, ela quase ficou alegre, mas então ela já era mocinha, já era moça, pois sim, todo mundo era. Da Mônica mãe? Passei da fase. Aquela menininha lá, game over, tempão já. Então a mãe disse da maquiagem que ela usava: não é da Mônica? pera lá, ela disse, fala baixo, não espalha, olha o mico, olha só o Kong. Correu pro quarto, trancou-se, emburrou-se. Só a noite é que desemburrou: uma unha que tinha de azul, outra de verde. E azul e verde até acabarem as unhas. Ela na cama, entontecida. Desemburrada.

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