eu tomara ver


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Estava para começar as aulas. Caderno, borracha e lápis. A menina colocaria aquilo num bizaco plástico. A logomarca do supermercado estampada, as alças novinhas de bolsa que ainda não levara peso. Você me arranjaria mais uma dessas, por favor. Ela ouviu a Vó pedindo. Ela ainda nem saberia para que era a bolsa plástica. Se a Vó não lhe entregasse ela nem saberia. A Vó tinha uns mistérios que só de quando em quando é que se revelavam. Então a menina ganhou uma bolsa e ainda outra coisa. Tem outra coisa! Era a Vó fazendo arrodeios. Outra coisa pra minha filha ficar bonita, adivinha! A menina olhava pra Vó, soletrava os olhos d’água, a boca fina, esticada, e nada de conseguir adivinhar. Ou não adivinhava ou não queria adivinhar coisa errada, esperar uma coisa e ser outra, magoar-se ou magoar a Vó. Sei o que é não Vó, sei não, o que é? Daí a Vó chegou ao guarda-roupa, fuçou no escuro, tirou uma caixa, abriu. Uma alpercata igual minha filha queria, lembra que minha filha queria? A menina lembrava. Ficou boa no tamanho, ela disse, o tamanho certinho! E o tamanho certinho era com um dedo de sobra, um dedo para frente, que era o tanto que a menina cresceria aquele ano.

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