eu tomara ver


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Que tédio, ela disse. Nada acontece, ninguém chega e ninguém morre. Ficou um tempo sem pensar nada. Um tempo suspenso, só dela. Daí a pouco a ficha caiu. Plim. Caiu. Quem é que não morreria, nem chegaria, nem morreria? E agora ela teve um pouco de vergonha, lasquinha de nada, porque lastimar que ninguém morria era certo indignar qualquer criatura. Ela se reprovou um pouco. Quem é que morreria era uma bobagem. Por certo que era. Juízo menina, tapinhas na boca, juízo. Olhou pro iphone, o net, o televisor. Tudo descarregado, sem área, sem energia. Que tédio. Ficar só a luz do sol era um tédio. Ninguém não chega nunca. Os dedos inquietos, vibrando para tuitar. #ninguémNãoChegaNunca, seria a frase descolada, o tweet. E se tivesse chegado algum e-mail importante? Havia essa preocupação. Nem lhe passava pela cabeça que ninguém lhe mandava e-mail. Ninguém que fosse humano. Homo Sapiens-sapiens. Só havia os e-mails de lojas: Submarino, Americanas, Ponto Frio, Magazine Luiza, Wal-Mart... E se perdesse alguma promoção? Agora nem era mais o tédio que lhe tomava, era uma estaca de aflição entrando no corpo. #voltaEnergia.  

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