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Mostrando postagens de Julho, 2012

eu tomara ver

12. Acha que é adulta, a mãe estava dizendo. Nem me ouve, nem ver. Acho que ela nem me ver. Vem cegando. De pequenina que ela cegava a mãe. A mãe às apalpadelas. Saía de casa, o cuidado que a porta não rangesse, a porta nem batesse. Entrava no elevador e descia pro parquinho. Aquele colorido todo, o sol gostoso, a liberdade. Liberdade ou independência, ela nem sabia, só sentia aquela vontade de rir de nada e de brincar depressa, antes que alguma coisa... antes que... e a vontade, e a força do corpo só queriam  brincar. A mãe lá em cima, chamando, gritando, fuçando os cantos. Até a tampa do vaso sanitário ela fuçou, coisa de mãe. Desespero. Sequestro, ela pensou, a desgraça de um sequestro, minha filhinha... Foi do escorrego que a menina gostou mais. Lá de cima ela abria os braços, sentia o vento, descia. Sua filha estava sozinha, a mãe ouvia o síndico esbravejar, um perigo, uma imprudência sem tamanho, sem pé nem cabeça, ela sozinha, só ela e seu ninguém... A mãe sentou a filha no sofá…

eu tomara ver

11.
A menina não dormira direita aquela noite. A Vó tossira, cuspira um sangue pastoso. Um aperreio. A menina que limpou o chão: jogou água, esfregou o sangue coalhado. Uns pedacinhos que se prendiam ao chão lhe exigiram mais força. Limpou. A Vó espanava com a mão, deixasse aquilo para depois, ela mesma limparia mais tarde. Cuspiria e limparia. Dava um tempo e a Vó adoecia. Tempinho de nada, ela adoecia. A menina já vivia com uma gastura no pensamento, uma desconfiança. Era ela quem lavava a roupa.  Chegava no rio, acocorava e lavava. A Vó não pegava mais em água, adoecia. Nem carregava lenha, nem espantava os urubus com carreiras e pedras no lombo. A menina passava e os urubus olhavam, lambiam os bicos e olhavam. Aí agora era a Vó que tinha uma gastura, desconfiança de um bicho daqueles voar na menina, cravar no pescoço. A Vó e a menina dormiam na mesma cama. Uma para cima, outra para baixo. A menina para baixo, no canto da parede para não cair, se estourar de uma queda. Dormia no can…

eu tomara ver

10. De agora em diante o que eu serei? Ela perguntava a mãe. As sobrancelhas arqueadas e um amargo nos lábios. Que serei? Agora ela disse desafiante. Não era a mãe que tinha todas as respostas? Estude, a mãe disse, estude e você saberá. A mãe sempre dizia, sempre mandava, até pelas costas a mãe dizia: estude, estude. Ela entrava no google, buscava, buscava... Às vezes ela imprimia, aumentava a letra e imprimia. Às vezes lia na tela mesmo, aumentava a letra e lia. Preenchia o questionário, o site somava respostas, o site concluía: aptidão para as artes, filosofia, sociologia, lidar com humanos, comunicar, atender...Eram os testes vocacionais. Humanos, ora essa, humanos. Argh. Dava-se melhor com máquinas, tecnologias, spans. A mãe chegava, ouvia as lamurias, dizia que ainda havia tempo pra pensar, decidir o que seria da vida, era jovem. Jovens são assim, essa coisa toda assim: sem jeito, faminta por nada. Até gostava da filha buscando o que seria da vida, que faria. Queria mesmo era que…

eu tomara ver

9 Ficou olhando o formigueiro. O caminho de formiga e o formigueiro. Tempão olhando. A vista já doendo e ela teimando, gasturando os olhos. Acontecia de uma formiga se desgarrar, perder o fio do caminho. Então ela parava, esperava. A menina achou que a pobre estivesse farejando. Virando pra um lado e outro, farejando. Parece um cachorrinho, ela pensou. Só o que falta mesmo é um rabo. Pegou um gravetinho e botou na frente da formiga. Ela farejou, balançou com as antenas e deu um tempo, pensando, escolhendo o que fazer. Uma patinha encostou no graveto, examinou a firmeza, ainda farejou um pouco, restinho de cisma, e subiu. A menina levantou o graveto, trouxe para junto dos olhos. A formiga cresceu demais, embaçou a vista. Foi preciso afastar um pouco até a imagem tomar nitidez. Coisa assim a Vó deveria ver. Com certeza ela queria ver, enxergar de perto, fechando mais um olho que outro, pra ver melhor. Vou criar, a senhora deixa, a senhora permite Voinha? Se quisesse muito era Voinha o no…