eu tomara ver


9
Ficou olhando o formigueiro. O caminho de formiga e o formigueiro. Tempão olhando. A vista já doendo e ela teimando, gasturando os olhos. Acontecia de uma formiga se desgarrar, perder o fio do caminho. Então ela parava, esperava. A menina achou que a pobre estivesse farejando. Virando pra um lado e outro, farejando. Parece um cachorrinho, ela pensou. Só o que falta mesmo é um rabo. Pegou um gravetinho e botou na frente da formiga. Ela farejou, balançou com as antenas e deu um tempo, pensando, escolhendo o que fazer. Uma patinha encostou no graveto, examinou a firmeza, ainda farejou um pouco, restinho de cisma, e subiu. A menina levantou o graveto, trouxe para junto dos olhos. A formiga cresceu demais, embaçou a vista. Foi preciso afastar um pouco até a imagem tomar nitidez. Coisa assim a Vó deveria ver. Com certeza ela queria ver, enxergar de perto, fechando mais um olho que outro, pra ver melhor. Vou criar, a senhora deixa, a senhora permite Voinha? Se quisesse muito era Voinha o nome da Vó. Come pouquinho, farelos, grãos, coisinhas de nada. A menina pegava um cubinho de açúcar, deitava no chão. A formiga farejava o doce, mordiscava.

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