eu tomara ver


12.
Acha que é adulta, a mãe estava dizendo. Nem me ouve, nem ver. Acho que ela nem me ver. Vem cegando. De pequenina que ela cegava a mãe. A mãe às apalpadelas. Saía de casa, o cuidado que a porta não rangesse, a porta nem batesse. Entrava no elevador e descia pro parquinho. Aquele colorido todo, o sol gostoso, a liberdade. Liberdade ou independência, ela nem sabia, só sentia aquela vontade de rir de nada e de brincar depressa, antes que alguma coisa... antes que... e a vontade, e a força do corpo só queriam  brincar. A mãe lá em cima, chamando, gritando, fuçando os cantos. Até a tampa do vaso sanitário ela fuçou, coisa de mãe. Desespero. Sequestro, ela pensou, a desgraça de um sequestro, minha filhinha... Foi do escorrego que a menina gostou mais. Lá de cima ela abria os braços, sentia o vento, descia. Sua filha estava sozinha, a mãe ouvia o síndico esbravejar, um perigo, uma imprudência sem tamanho, sem pé nem cabeça, ela sozinha, só ela e seu ninguém... A mãe sentou a filha no sofá, falava e gesticulava e suava. A menina balançava as pernas, uma para cima, outra para baixo, a mãe falando e ela cegando.

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