semente 1


Elefantíase. Quem visse diria isso. Dilatando as pupilas diria crise de reumatismo ou elefantíase. Era aquele pernão de tora que ela tinha. Pernão lá de elefante. A pessoa que era ela bem mais se arrastava que andava. Se arrastava de quem vinha da guerra, quem retirava da seca, a pessoa só o resto, só os noves fora, retirando. O peso da perna e o peso da barriga. Tomando a frente do corpo a barriga lá estava. A barriga toda avante. A pessoa sente a falta da barriga. Já ouvi dizer. A voz de mulher dizendo: a gente quer perder a barriga, os pneus, as massas adiposas, mas a barriga de filho nosso nem quer. Nunca quererar. Lá em nossa barriga é que ele está mais protegido né? Aqui dentro é que ele está mais guardado ne? A massinha de modela que é o filho nosso na barriga nossa a gente não quer perder. Ele guardadinho na barriga nossa, abrigado de vento e chuva e queda e arranhão... Ele aqui, dentro da pera. Já viu que a barriga da gente é a forma mesma de uma pera!? Não é, já viu? A pera com uma sementinha dentro. Pera, uva, maçã, salada mista... Se eu falo em pera eu lembro da música. Qualquer fruta da música eu lembro da própria música. Dessa vez a cara dela foi ficando manchada. Dia a dia, manchando. Ferrugem alastrando. Dessa vez dessa gravidez foi assim. Da outra vez, que tudo era novo, era como se não acontecesse nada, dessa vez é que ia acontecendo tudo: as pernas inchando, a cara manchando e os cabelos esfalriralipando, que é o cabelo ficando só em falripas, que é puindo-se, esgarçando-se. Pode ser porque da outra vez que ela teve menino ela era bem mais nova, bem mocinha que a gente tinha até pena dela ter menino, dela parir. Aquela dor toda, aquela rasgação toda. Só quem já deu a luz, quem já pariu sabe do que eu estou falando. 

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