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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

Rezamento

2 A Vó ficava a encomendar as almas moribundas. Num canto da casa havia um oratório que a velha espanava, acendia velas e encomendava. A Vó era mais de silêncio. Não estivesse a encomendar era mais de silêncio. Acontecia de às vezes perguntar coisas a Menina. Coisas sobre os cabelos, as unhas e as partes baixas. Às vezes aconteciam conversas infindas. A Menina que puxava conversas. As tantas dúvidas, as tantas respostas da Vó. Urubu na estaca olhava a Menina. Pescoço entrado, bico longo; curvado, pescoço fundo, penas pretas, pescoço fundo, curvado. Olhando. Ventava. Urubu fechava os olhos livrando ciscos. Ventava. Urubu batia as asas. Equilibrava-se. Urubu mirava a Menina. Fosse de canto agourava-a. Tão magrinha a menina. Se ela tombasse Urubu esperaria uma semana. A carne apodrecendo, temperando. Urubu velaria o corpo se ela tombasse. Urubu voaria alto. O costume: voaria alto, rodaria lá em cima, nem bateria as assas; planando. Desceria. O círculo que era ele descendo. O espiral. Urubu limpa…

Rezamento

1
Urubu ficou olhando a Menina.

Ela já magrinha. Gravetinho. A Vó dizia dela ser um gravetinho. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua e ria da Vó.
O leite ela tomava devagar. Nem haveria mais, nem era sempre da Vó ganhar leite, ferver leite, acrescentar o caneco de água e ferver o leite.
Mágica. A menina achava mágica da Vó. Água virava leite, leite subia, fervia. Leite esfriava, ela tomava. Bebericos. Bigode de leite.
Afastava a nata. Soprava, igual a Vó ensinou, afastando. A nata era coisinha nojenta. O couro do leite, a Vó dizia. Ela queria não.
Vermelhinha. A língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, as orelhas...
A Vó pegava na orelha, dizia, se falam da gente a orelha avermelha. Orelha queima, capaz que inche. A Vó pegava a orelha da menina.