Rezamento


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Urubu ficou olhando a Menina.


Ela já magrinha. Gravetinho. A Vó dizia dela ser um gravetinho. Ela ria da Vó, tomava um copo de leite, limpava o bigodinho com a língua e ria da Vó.

O leite ela tomava devagar. Nem haveria mais, nem era sempre da Vó ganhar leite, ferver leite, acrescentar o caneco de água e ferver o leite.

Mágica. A menina achava mágica da Vó. Água virava leite, leite subia, fervia. Leite esfriava, ela tomava. Bebericos. Bigode de leite.

Afastava a nata. Soprava, igual a Vó ensinou, afastando. A nata era coisinha nojenta. O couro do leite, a Vó dizia. Ela queria não.

Vermelhinha. A língua dela, bem vermelhinha. As bochechas bem vermelhinhas, a ponta do nariz, a palma da mão, a sola, as orelhas...

A Vó pegava na orelha, dizia, se falam da gente a orelha avermelha. Orelha queima, capaz que inche. A Vó pegava a orelha da menina.

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