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Mostrando postagens de Março, 2013

Rezamento

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A Menina juntava pedacinhos de sabão: amarelos, alaranjados, verdes, azuis. Acocorada a beira do riacho, esfregava sabão nas roupas. Esfregava a roupa contra os dedos. Enxaguava. Batia a roupa contra o lajeiro, torcia. Acontecia de passar o sabão na roupa e um dedo escapar, relar no lajeiro, sangrar. A Menina mergulhava o dedo na água e a correnteza levava o sangue. A filepinha de sangue, cobrinha de sangue, de nada. A Vó ficava dentro de casa, entrevada. Ela e o escuro da casa. Acendia velas grossas e encomendava as almas doentes. Com um tempo a Vó abria a janela. A luz doía na vista. Os olhos fechados abriam-se devagar, acostumando se ao clarão. Lá em baixo, a vista da velha mirando, estava à Menina, a neta. Pequenina, magrinha magrinha. Pele e osso, a Vó dizia. Dia desses a gente chega num doutor, pergunta, pega receita e minha filha cresce, minha filha encorpa, fica maior que eu, maior que a Vó e as almas.

Rezamento

3 Estava o corpo na beirada. Desse um vento o corpo cairia. Desse uma brisa. O corpo caindo, agora. Décimo andar: pernas e braços, esperneando. Tivesse uma corda ela escaparia. Uma corda que não estivesse no pescoço. Já tivera uma. Nono, oitavo, sétimo andar: grito. Já um grito afogado, mas ainda grito. Que foi que eu fiz, ela pensava. Um instante de nada, ela pensou: besteira, fiz besteira poxa. Sexto, quinto, quarto andar: encostou o queixo contra o peito. Aprendeu numa aula de primeiros socorros. ...É importante, em caso de queda, procurar encostar... Os alunos no pátio, o bombeiro falando. Ela ouvia e passava mensagens no iphone: @nathy se o bombeiro fosse bombado eu pegava fogo #ficadica. Dez minutos depois ela colocava o fone no ouvido. O cara falou umas coisas lá, tipo que a pessoa... nem lembro mãe, um saco. Disse no carro. Terceiro, segundo andar: fecha os olhos, faz careta, prende a respiração. Primeiro andar: espera o impacto. O corpo subirá dois centímetros, mas quem estiver…