Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2017
Imagem
Perdida
a bala
atravessa a rua o semáforo a janela a cortina a cabeça o sonho
o recém-nascido


(Imagem: creative commons)
Imagem
O amor bombardeado. O amor entre escombros. O amor enxotado de seu país. Ele refugiado e roído. O amor aqui na esquina, ele amargo e turvo. Amor sem pieguice. Amor com seus frutos e entressafras. Este é o tema de “Ruinosas rumimancias”, livro de poemas de Philippe Wollney. 
: nas ruínas de uruk não há nenhuma menção sobre nós :
não há nossas iniciais gravadas em cunha nas paredes do templo à irana

***

não se engane

eu quero é minha boca
em sua boca o contato direto
do afeto do verso que repara
o toque que inflama
eu quero encurtar distâncias

***

meu coração é como um jambo maduro que acabou de cair 

De viver

Imagem
vida
sem avidez
é osso poroso
farelado
puído


(Imagem: Pinterest)

Paulo Gervais, Poeta.

Imagem
Paulo Gervais havia publicado “Guerra Florida” no ano 2001. Um livro excepcional, já em sua estreia. Dezesseis anos depois ele nos brinda com “Paulatim”, uma joia de esmero e apuro de linguagem!

a árvore não é, senão
um desvio do grão:
que explica e ramifica
e complica a vida (...) 


Paulatim é uma leitura de busca. Uma busca, que se bem cuidada, nos revelará um Poeta exato. Enxuto de palavras e derramado de imagens. O que, ao meu ver, traz força a sua poesia.

a coisa se veste
de palavras:
dela se despe,
sem ela nada

amiúde tece
para si
uma malha, tibí;

a gente sabe
a coisa, de ouvir
ecoar a palavra,

ver a imagem
esculpida na página:
capaz de fala,

enganar pigmaleão
sua obra magma:
que não fez a mão

sua, e valha
outro grão, a palha. 


Paula Gervais nos traz versos de labuta, apuro, esmero. Tudo isso para resgatar o seu passado mítico: seus avós e as demais gentes que povoaram o lúdico de sua meninice. Paulatim é um livro de suas origens, seu germinar e florir.

ter esses sinais
cortados nos dedos
de mim faz
outro,…

Viva

Imagem
Viva-se
não morra-se
tão fácil


(Imagem: Pinterest)

O bigode de Dali

Imagem
Todo gênio que se preze, é louco! Se não for assim, estará ainda no rascunho. Existem os gênios e existem os intelectuais. São duas criaturas distintas. O Gênio cria luz! O intelectual acende a luz. Um faz! O outro explica o que foi feito. Um sopra! O outro cata-vento.
Salvador Dalí, um gênio total, teve seu corpo exumado, recentemente. Abriram sua múmia e tiraram dentes, unhas e cabelos para exames de paternidade. E, olha só, o excêntrico bigode continua vivo, ereto e em horário de 10 pras 10. Surreal! Não há Salvador Dalí sem o bigode. O bigode era as suas antenas de captar o outro lado do mundo.
Por que haveríamos de esperar normalidade, daquele que em vida só nos deu loucura? Por que em morte não poderia fazer o mesmo? Untou o bigode em banha de porco e morreu.

Antes de morrer teria dito para não o acordar. Imitemos!
Dalí, quando criança, queria ser cozinheira. Não era cozinheiro. Era cozinheira, igual sua mãe e sua avó. Suas irmãs e primas. Já era surreal ou não fazia juízo de gêner…

Ruindade

Imagem
Não falta neste mundo é gente ruim. Das de ter dejetos no sangue e chumbo na alma. As de juntar lodo e ferrugem na saliva. Gente de sangue límpido e alma leve de fumaça, estão rareando. Estão elas a morrer de última espécie. E era tão boa alma minha Avó. Falava com animais, com estranhos, com as paredes e com Deus. Com Deus a conversa era maior. Eu tinha ciúmes de Deus que tiravam minha Avó pras conversas mais intermináveis. Pei pei pei, pei pei pei. Era minha Avó papeando com Deus. Uma intimidade de pareceiros. Minha Avó virou uma santa! A primeira santa gorda, brasileira e octogenária. Pregava bondade e mansidão! Acolhia todos os animais que lhe colocassem na porta. Famintos, remelentos, desamparados. A boa velha os cuidava igual a filhos. Mas você procure. Você fuce o que for de monturo e verá as demais gentes ruins existindo. Saudavelmente ruins. Rosadas. Pançudas. Todas iguais a você e a mim. Todas iguais e normais na aparência, mas com dejetos no sangue e chumbo na alma. Aí a criatu…

Revoada

Imagem
As mãos que dão tchaus
são pássaros que erguem voos


(Imagem: Pinterest)

Diremos

Imagem
Até o fim da vida
diremos ainda
um bilhão de palavras
que dirão nada
do que queremos dizer

(Foto: José C. Alves)

Suspiros

Imagem
Vi os três últimos suspiros de meu Avô. Um longo, movendo todo o corpo para frente e contorcendo os dedos engravetados. Depois veio um suspiro calmo e curto. Uma brisa. O terceiro suspiro suponho que só eu tenha visto. O terceiro suspiro foi de Avô para Neto. Nossa íntima despedida. Passa-me a ideia de levar adiante um livro sobre a morte de meu Avô José. Nunca me recuperei desta morte. Nem irei. Nem quero. É a minha morte de estimação. Plantada. Enraizada. O livro tem a ver com o momento que desceram o caixão de meu Avô ao fundo da cova. Homens que nunca vi, puseram cordas carcomidas por baixo do caixão, suspenderam-no para ir arriando aos poucos. Puseram meu Avô num buraco fundo, escuro e frio.  Tive raiva da terra que lhes jogavam em cima. Em poucos segundos a terra formava uma montanha. Soterraram-no. Um dia antes ele respirava, existia sobre a cama, articula gestos, arrastava a língua na boca pesada, pedia café e bolachas. ―Coma, Vô. Fique forte! ―Estou indo. Fique forte! Só me dei co…

Mania

Imagem
Fora a mania de adoecer e achar fins de mundo em fins de esquinas eu vou indo e vindo

Imagem
Até onde as balas vão? 
Aí você martela e já pensa: até a lua. Até a esquina. Até as carnes de um filho de Deus que amorteça. 
Balas vão mais longe que os chumbos. Chumbos só abatem passarinhos. Chumbos salpicam, espalham-se nos ares e aninham nas aves. Pior malvadeza matar aves a pleno voo. A pleno voo ou a pleno pouso. Pernilongo a gente pondera. Mata. 
Até onde as balas vão? 
Do meu quintal eu jogava pedras nos telhados vizinhos. Pedras, caroços e embalagens. As pedras sumiam nos ares. Depois era o estalo seco nas brasilites. Era bom ser ruim e ninguém ver. Depois parei. Julguei que pudesse furar uma cabeça, um olho. 

Impulso

Imagem
Acredito por impulso! Não tenho o menor problema em acreditar nas coisas. Eu gosto é da possibilidade. Gosto de esticar uma formiga a grandura de um pinscher. Gosto de ver um boi ao tamanhozinho de uma formiga! Um dia eu vi um boi copulando! Achei a maior briga para uns segundinhos de nada. Daí o boi desmontou e fez ar de riso. Alguém disse que aquele boi valia ouro. Milhões. A vaca tinha sido premiada. “Essa já está com um jesuizinho nas trompas”. Aí eu fiquei crendo no jesuizinho nas trompas. Dormi latejando se o jesuizinho era mais pra boi ou mais pra gente humana. Mais de focinho ou mais de nariz. Tia Maria disse que aquilo era da maior heresia. “Creêndeuspai”. Puxou-me pra parede branca. Ordenou que a olhasse a tarde toda. Queria que eu tivesse cura das coisas mundanas. Tia Maria me purificava com rezas e matos. Tocos de velas e água perfumada de alfazema.
Tia Maria dizia que eu tinha um vazamento na cabeça. Precisava tapá-lo ou eu cresceria charlatão. Aí eu já tinha a crença de ter…

Criatura

“Para o inferno”. Reparei a Criatura. Alto, magro. Espigão. Queimado de muito sol. Luzente de suor. Subia a rua. Sua motocicleta emitia explosões e solavancos. A Criatura era sacudida e custava se equilibrar. Touro e peão.   Outras vezes, subia nossa rua em maior velocidade e barulho. Sobretudo barulho! Conversas ao telefone eram interrompidas. Rádio, televisão, despertadores... Inaudíveis. Algum recém-nascido acordava, cachorros latiam no fundo dos quintais. “Quem é o filho da puta?” Ouvia-se.  Empinava a motocicleta, mexendo muito o guidão para um lado e outro. Muita destreza. Devia passar o tempo somente a se ocupar daquilo. Suponho que todos lhe desejassem uma queda. Um estouro homérico. Arranhões e fraturas expostas. Um idiota em sua grandeza. Aquele dia, não. Aquele era o dia de sua derrota! A motocicleta emitia explosões. A Criatura equilibrava-se nos solavancos. Uma última explosão. A motocicleta havia apagado. Saímos. Fomos à rua. Todos queriam ver a derrota da Criatura. Alguns d…

Bestando

O King Kong dos anos 80 levou-me as lágrimas. Havia me apegado fácil ao macaco. Era um amigo. Um parente de quem se gosta e a quem não se julga a aparência.
O Kong estava no maior edifício da cidade. Amedrontado e, ao mesmo tempo, enfurecido. Subiu naquele aranha-céu como estivesse se escondendo na copa de uma árvore.
O Kong foi metralhado impiedosamente por aviões. Sangrava e gritava. Esmurrou algumas aeronaves, mas no fim tombou. Caiu o meu amigo. Meu parente das matas.
Morreu devagar, cansando a morte com seu tamanhão. Os olhos a fecharem lentamente. Os olhos do Kong. Os meus já estavam inundados a borrarem tudo.
Escondi o choro. Engoli gemidos e urros. Que diriam de mim a chorar por um macaco? “Está bestando, menino?”

Corri a um canto, onde me soubesse sozinho em alguma mata e sobre alguma copa. Chorei pelo Kong.