Bestando

O King Kong dos anos 80 levou-me as lágrimas. Havia me apegado fácil ao macaco. Era um amigo. Um parente de quem se gosta e a quem não se julga a aparência.

O Kong estava no maior edifício da cidade. Amedrontado e, ao mesmo tempo, enfurecido. Subiu naquele aranha-céu como estivesse se escondendo na copa de uma árvore.

O Kong foi metralhado impiedosamente por aviões. Sangrava e gritava. Esmurrou algumas aeronaves, mas no fim tombou. Caiu o meu amigo. Meu parente das matas.

Morreu devagar, cansando a morte com seu tamanhão. Os olhos a fecharem lentamente. Os olhos do Kong. Os meus já estavam inundados a borrarem tudo.

Escondi o choro. Engoli gemidos e urros. Que diriam de mim a chorar por um macaco? “Está bestando, menino?”


Corri a um canto, onde me soubesse sozinho em alguma mata e sobre alguma copa. Chorei pelo Kong.

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