Suspiros


Vi os três últimos suspiros de meu Avô. Um longo, movendo todo o corpo para frente e contorcendo os dedos engravetados. Depois veio um suspiro calmo e curto. Uma brisa. O terceiro suspiro suponho que só eu tenha visto. O terceiro suspiro foi de Avô para Neto. Nossa íntima despedida.
Passa-me a ideia de levar adiante um livro sobre a morte de meu Avô José. Nunca me recuperei desta morte. Nem irei. Nem quero. É a minha morte de estimação. Plantada. Enraizada.
O livro tem a ver com o momento que desceram o caixão de meu Avô ao fundo da cova. Homens que nunca vi, puseram cordas carcomidas por baixo do caixão, suspenderam-no para ir arriando aos poucos.
Puseram meu Avô num buraco fundo, escuro e frio. 
Tive raiva da terra que lhes jogavam em cima.
Em poucos segundos a terra formava uma montanha. Soterraram-no.
Um dia antes ele respirava, existia sobre a cama, articula gestos, arrastava a língua na boca pesada, pedia café e bolachas.
Coma, Vô. Fique forte!
Estou indo. Fique forte!
Só me dei conta da morte de meu Avô quando todos saiam do cemitério. Que estavam a fazer todos? Como podiam deixar meu Avô José ali? As horas todas da vida, ali, soterradas? Os homens recolhiam as pás, enxadas e cordas. Saiam para o mundo, para suas vidas.
Fiquei a ver a cova de meu Avô. Eu e ele, numa despedida lenta, serena. Ele ficaria sob a terra. Eu seguiria sobre a terra. Um vazio. Uma covardia deixar meu Avô. Como se dariam os dias sem ele? As chinelas arrastando na casa, a bênção na hora de ir pra escola, o cochilo no sofá...
Avô plantado. Eis o título do livro: o Avô plantando!

(Foto: Meira)

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