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Mostrando postagens de Agosto, 2017

Fome

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Educou toda a fome para o almoço. Criou a fome entre as entranhas, gerou, pariu. Não deu de beber e nem deu de comer. Nem o pãozinho do café, a tapioca com queixo, o próprio café adoçado, fumaçando. ― A fumaça era aquela serpentinha rebolando. Ela soprava e a fumaça dissipava. Depois vinha a serpentinha rebolando. ― Nem ao meio da manhã, uma bolacha Maria, uma fruta. Uma bananinha amassada com aveia. Quis comer tudo. Quis e teve raiva de querer. A raiva sobrepondo a fome. No almoço Ela se vingaria. Daria a carga. Só verdura. No almoço Ela só comeria verdura e água. Queria emagrecer. Palito. Palitinho. Alface e vinagre e água. Havia comido terra quando era pequena. Comido terra e chupado bandinhas de tijolos. Pois era isso: alface, vinagre e água. Viveria? Chegaria até o fim do ano nesse confinamento? Estou transbordando. Aqui de lado eu transbordo. Esses pneuzinhos. Ela dizia. Ela dizia e segurava os pneus. Palito. Palitinho. O garçom chegou e foi pondo o almoço. Ela olhando as unhas …

Macacos

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"Nossos avós eram macacos! Viemos todos de uma floresta de macacos. Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens. No futuro seremos robôs de carne e osso". 
A professora parou de falar e olhou a turma. Ar superior. Silêncio na sala. Em seguida bateu as mãos limpando a crosta de giz. Subiu uma nuvem. "Sou uma macaca. Somos todos macacos." Teria ela percebido a nuvem? Havia respirado o pó de giz? “Professores recebem pó de giz no salário”. Aos sessenta iriam todos para o balão de oxigênio. O bom Deus que me defendesse dessa profissão! Queimei a língua. Conforta saber que minha geração começou a ensinar com o lápis pilot. Adeus pó de giz!

“Somos todos macacos.” A ideia de vir do macaco alegrava-me mais do que vir do borro e de uma costela. Deus era um Mestre Vitalino de mão cheia, mas eu queria ser fruto da mutação do macaco. Hoje caiu por terra a teoria de que teríamos avós macacos. Caiu por terra, mas paciência, apeguei-me a ela. Tomei-a de esti…

Modus Operandi

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pica-pau fica nesse trabalho
de martelar o tronco
em busca de insetos
que possa comer demônio fica nesse trabalho
de martelar o crânio
em busca de miolos
que possa comer

Ouvir

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Sou das criaturas que gostam de ouvir as conversas dos outros! Fico nisso um bom tempo. Em filas de banco, de preferência, com sombra e ar condicionado, portas de vidros e seguranças. Para muitos, as filas de banco são as salas de suas casas. Conversam com total desenvoltura, como se recebessem visitas distantes. Sem as conversas alheias, as filas de banco seriam um calvário. 

Gosto de ouvir as conversas: direciono a orelha como quem procura sintonizar uma emissora de rádio, inclino o pescoço discretamente e ouço as fagulhas e zumbidos.

Nunca julguei que isto fosse um defeito de caráter, uma mácula de personalidade, um borrão a tirar-me a nitidez.

Acontece que sou discreto e a discrição é quase inocência. Aliás, se levada muito a sério, a discrição é a prova da inocência.

Lembra do sofá riscado, o jarro quebrado e a vidraça estraçalhada? "Quem fez tamanha patifaria?" Se ninguém viu, para que haveríamos de nos entregar, produzir provas contra si, sofrer desmoralização e lev…

Andar

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Fui das crianças que mais levaram quedas na vida. Uma queda para cada dia. Uma queda para cada hora. 

Não lembro ao certo a idade em que comecei a andar. Se teria acontecido antes de um ano ou depois. Suponho que depois. Bem depois. Ninguém nunca tratou deste assunto comigo. O que só aumenta as minhas suspeitas de um andar tardio e demente. 
Fui um menino de joelhos dilacerados. A conta disso, vivi acuado, aos cantos, a sombras dos outros meninos. Impossível um jogo de futebol em que não fosse o último na escalação. Por piedade e misericórdia. 
― O bicho não sabe nem andar.  ― Não sabe nem respirar. 
Tinha habilidades em fazer de conta que não ouvia. No jogo, deus iria me iluminar e todos veriam minhas proezas. 
Deus era bem distraído comigo. Haveria mais coisas a fazer no mundo que ajustar-me as pernas. 
Sempre me vi de calção acima dos joelhos para as feridas secarem. 
Em datas festivas eu usava calças que logo manchavam de sangue e pus dos joelhos carcomidos. Uma imundície. Um const…