Macacos


"Nossos avós eram macacos! Viemos todos de uma floresta de macacos. Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens. No futuro seremos robôs de carne e osso". 

A professora parou de falar e olhou a turma. Ar superior. Silêncio na sala. Em seguida bateu as mãos limpando a crosta de giz. Subiu uma nuvem. "Sou uma macaca. Somos todos macacos." Teria ela percebido a nuvem? Havia respirado o pó de giz? “Professores recebem pó de giz no salário”. Aos sessenta iriam todos para o balão de oxigênio. O bom Deus que me defendesse dessa profissão! Queimei a língua. Conforta saber que minha geração começou a ensinar com o lápis pilot. Adeus pó de giz!

“Somos todos macacos.” A ideia de vir do macaco alegrava-me mais do que vir do borro e de uma costela. Deus era um Mestre Vitalino de mão cheia, mas eu queria ser fruto da mutação do macaco. Hoje caiu por terra a teoria de que teríamos avós macacos. Caiu por terra, mas paciência, apeguei-me a ela. Tomei-a de estimação. É minha! 

Havia assistido um documentário da National Geographic que endeusava os macacos. Dez vezes mais fortes que um homem adulto. De início não acreditei. Dez vezes? Um absurdo! Um macaco valeria por dez Schwarzeneggers? Conversa fiada. Os canais vivem fazendo piada com a nossa cara. O amigo leitor acredita em tudo? Dez? Vá lá que cinco! Onde caberia tanta força em braços e pernas de cambitos? Nos ossos, decerto.

Daí fui vendo a facilidade dos macacos subirem nas árvores. Um foguete não subiria com tanta rapidez. Dez Schwarzeneggers não subiriam. Nos ossos, só se fosse.

Além da força descomunal, macacos podem muito bem trocar os pés pelas mãos. Eis uma limitação humana terrível: só saber descascar bananas com as mãos. Macacos descascam bananas com os pés nas costas, os pés na cabeça. Contorcionistas de circo!

Possuem solidariedade ausente em muitos humanos. Exemplo: se um macaco ficar doente ou aleijado, se cair de um galho podre, os outros macacos lhe tomam de conta. Cuidam e alimentam. Mais eficientes que muitos médicos milionários, mal formados e arrogantes. O próprio macaco doente, é que, depois de um tempo, acaba se escondendo e deixando o bando ir adiante seguindo algum Tarzan. Último ato de heroísmo que é morrer sozinho sem virar fardo pra ninguém.

Minha avó Bertoleza tinha essa bravura. Debilitada, quis ficar em casa, no seu galho, sem que lhe pusessem nas costas. Tia Bazinha disse que ela não tinha querer. Levou-a consigo e tomou de conta até ela dormir profundamente.

Catar piolhos! Sempre achei um ato de extrema solidariedade a catação de piolho entre a macacada. A mãe cata no filho. O filho cata no pai. O pai cata no avô. Uma vez catado, uma vez comido. Isso mesmo, comem sem nenhuma cerimônia. Quantos piolhos para matar uma fome? Alguns cospem fora. Os mais higiênicos.

“Depois viramos Australopithecus, em seguida, viramos Homo Sapiens.” Os Australopithecus ainda não eram humanos. Eram uma coisa no meio do caminho. Um rascunho, um jorro. Os Homo Sapiens já eram os humanos de hoje: faziam fogo, plantavam milho e matavam por inveja ou para conquistar novas terras.

E chegamos a nós: o Homo Modernus: criaturas capazes de colocar um capuz ridículo, acender tochas e atear fogo nas casas dos negrões. Cultivar bombas atômicas nos quintais, jogar aviões em prédios, tomar refrigerantes e mudar de canal.  

Bendito seja o macaco e a gostosa catação de piolhos!

Postagens mais visitadas deste blog

Impulso

Suspiros

Paulo Gervais, Poeta.