Ouvir


Sou das criaturas que gostam de ouvir as conversas dos outros! Fico nisso um bom tempo. Em filas de banco, de preferência, com sombra e ar condicionado, portas de vidros e seguranças. Para muitos, as filas de banco são as salas de suas casas. Conversam com total desenvoltura, como se recebessem visitas distantes. Sem as conversas alheias, as filas de banco seriam um calvário. 

Gosto de ouvir as conversas: direciono a orelha como quem procura sintonizar uma emissora de rádio, inclino o pescoço discretamente e ouço as fagulhas e zumbidos.

Nunca julguei que isto fosse um defeito de caráter, uma mácula de personalidade, um borrão a tirar-me a nitidez.

Acontece que sou discreto e a discrição é quase inocência. Aliás, se levada muito a sério, a discrição é a prova da inocência.

Lembra do sofá riscado, o jarro quebrado e a vidraça estraçalhada? "Quem fez tamanha patifaria?" Se ninguém viu, para que haveríamos de nos entregar, produzir provas contra si, sofrer desmoralização e levar umas boas chineladas?

Risquei, quebrei, estraçalhei. Fiz um pouco de tudo isso. Fizemos, leitor amigo. Eu e você! Não somos santos. Nunca seremos!

Agora responda, acaso você também teria quebrado ou riscado algo, e se vendo sozinho, sem alguém que te apanhasse com a boca na botija, acaso você não teria escapulido de fininho e depois, quando o crime fosse visto, não terias encarnado o papel de inocente. E, embora ruborizando, terias dito que aquilo era um grande absurdo e o autor deveria ate ser castigado? Setenta chibatadas. Setenta vezes sete.

Ninguém é santo, leitor amigo. Nem eu, nem você!

Seja sincero, se você fosse santo, teria ou não teria uns bons motivos para ter vergonha de si? Vergonha das coisas feitas, vergonha dos desejozinhos que te passam pela cabeça. Quem é que não traz umas boas safadezazinhas escondidas na manga? És um devasso, leitor amigo. Eu também sou!

Onde foram parar as chineladas da infância. Edificavam, moralizavam ou deixavam marcas apenas? Assunto para outra crônica. O leitor amigo, se se cansar destas linhas, saberá que a próxima crônica terá ainda mais a ver com a sua própria história. Nunca levaste uns bons cocorotes?

Mas, voltemos ao tema desta crônica: ouvir as conversas alheias!

Há conversas que escuto pela metade. Espécie de filme que você não pega o começo e a história já vai longe. Nestes casos é preciso completar a história. Trabalho de restauração.

O Santo Antônio havia se espatifado. Ninguém viu, ninguém se acusou. Santo Antônio estilhaçado no oratório do Colégio. Mandaram o Santo para os trabalhos de restauro. Estava sem uma das mãos, sem um dos pés e sem a cabeça, que alguém teria descoberto ser de giz, saiu riscado o muro. Conversas que eu pego pela metade, restauro. Crio começo e fim.

Quando simpatizo com as pessoas que estão conversando, crio um começo ruim e um final feliz. Um final de honra ao mérito. Verdadeiro troféu de pendurar na sala. Se simpatizo com as pessoas crio um super-herói só pra elas.

Se não simpatizo com as pessoas que estão conversando, ponho azedume em tudo, desando o angu. Faço um começo bonito. Uma novela com fortuna e brilhantina. Um luxo. Tudo o que for bom e de engordar a vaidade. No fim, pimba. Derrubo o santo do altar e toda solidez se esfarela.

Em casa, me pego com as histórias que ouvi nas filas de bancos. Aproprio-me. Digo a mim mesmo, "e se fosse assim, e se não fosse assado?", "e se a senhora lá, tivesse dado entrada na aposentadoria mesmo sem o tempo de idade, só com os calos rombudos da mão?"

Tenho a impressão de que as pessoas conversam sobre minha vida.

Que saberiam elas sobre mim? Estariam inventando histórias. "Tem cara de assaltante", "aposto que vai sacar uma arma", "parece com o Kojak".

Suponho que falam de mim aonde chego. Alto, careca, barbudo, andar desengonçado. Sou um prato cheio pro tédio alheio.

(Imagem: Pinterest)

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