Há quem viva a dissecar sapos para saber o que estas criaturas carregam dentro. O dentro ingerido e o dentro com ele nascido. Não basta ver por fora, em camada de fino couro e verniz. É preciso ver profundo, mergulhar no recôndito cu do Judas. Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa. Não pense, leitor amigo, que seja uma atividade de quem não tem o que fazer. Pelo contrário, esteja a ver! Quem indaga o que dentro carrega um sapo alarga a humanidade. Engrandece a raça. Opulenta o viver. Pode haver, confesso, um pouco de exagero ao que digo. Escrevo sem régua e sem receios estatísticos. O conselho é que não me leves a sério. Aqui eu zombo e rio. Rir é a minha vingança contra a morte! 

Somente dois seres se prestam a essa tarefa engenhosa: dissecar sapos. O primeiro ser é Cientista, que no uso de um estilete, extirpa o sapo, corta-lhe os alvéolos, a traqueia e faz pequenas incisões nos pulmões, se calhar uma mudança de sexo, uma lipo. Tudo a saber se a criatura mudara de comportamento, se a recuperação se dará em dias ou meses e se tal pratica e viável em larga escala. Ao fim, escreverá um artigo e publicará em alguma revista acadêmica. 

O segundo ser é a Criança, que fará o mesmo serviço de abrir, mas sem a mesma perícia. Pegará uma faca de pão, desta mais dentada, e esfolará o pobre diabo, estranhando as vísceras estrebuchando e o debater-se do monstrengo. Ao fim o que queria mesmo era serrar a cobaia ao meio e a ver andando com as partes separadas. Se uma parte andaria para frente e a outra para trás. Se, como em mágica, as pastes emendariam. Se costurada com linha de sabre, não voltaria a vida este pequeno Frankenstein. Ao fim, fará uma selfie e postara numa rede social. 

(Imagem: Pinterest)

Postagens mais visitadas deste blog

Impulso

Suspiros

Paulo Gervais, Poeta.