Héroi



Herói só morre mesmo com a última pedrada. O último tiro!

Fiquei com este pensamento na cabeça, indo e vindo: ser um herói. Ser imorrível. Nas conversas em família citariam meu nome. “Um orgulho... De pequeno já sabíamos de sua grandeza... Um iluminado...”

Tive vontade de servir ao exército. Ser um soldado brasileiro condecorado com medalhas por bravura. Usaria a farda do Schwarzenegger, faca de sabre ― para abrir alguma lata de sopa de Andy Warhol ―, coturno com sola de pneu, metralhadora e cinturão de cartucheira.  

Tive disposição para ir a guerra e só temia a chuva.

Supus que a maior tristeza de uma guerra era a chuva. O Chão ensopado, lamacento, o coturno criando frieiras e bolhas nos pés. Na certa os coturnos afundariam e um inimigo atiraria pelas costas. 

Alguém perguntou o que iria fazer no meio de uma guerra?
―Mataria alguém?
―Como assim?
―Você puxaria o gatilho, mataria um cristão?

Numa situação de perigo eu não poderia titubear: ou puxava o gatilho ou seria morto com um tiro nas fuças. Nenhuma das hipóteses havia passado pela minha cabeça. Mataria alguém? Puxaria o gatilho?  Fui dormir pensando se teria coragem de puxar o gatilho.

No dia seguinte eu queria ir a lua. Usar capacete de aquário, uniforme balofo e dar pulos altos em câmera lenta.

Hollywood criava heróis, glamourizava a guerra em filmes épicos e a Sessão da Tarde me fazia puxar gatilhos imaginários. Eu acreditava, na minha infância, que uma guerra teria o poder de acabar com todas as guerras, as do presente e as do futuro. Mas seria uma guerra em que eu não puxaria o gatilho.

―Astronautas veem a Terra do tamanho de uma chimbre, eu disse.
―Você teria coragem de cuspir na terra?
―Como assim?
Da lua, você jogaria uma pedra na terra?

(Imagem: Pinterest)

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