Tive pena daquele homem! Pudesse lhe devolveria a juventude. Esticaria as rugas fundas e ensaboaria as manchas na pele. O tempo nos desgasta na cara, esteja a ver! É na cara que sentimos a ferrugem se alojando, levantando fervura, borbulhando. É na cara que o tempo deixa a sua pisada mais funda.

Tive pena daquele homem! Havia envelhecido vinte anos em cinco, disse, em tom lamentoso e arrastado.

“Feliz daquele que chegar a velhice, muitos irão ficar pelo caminho.” Cresci ouvindo minha avó Leuza dizer esta frase. Sempre achei uma frase superior. Um troféu a velhice.

O que apunhalava o coração era a tristeza daquele homem do Brasil. Trabalhador, pouco letrado e muito endividado. Um brasileiro que não assistia telejornais e nem lia romances. Teria envelhecido tanto as custas das dívidas? Amanhecer e adormecer pensando em dívidas. O leitor já não teria perdido um fio de cabelo ou criado uma ruga por uma conta atrasada? Acaso nunca inventasse uma história para se livrar de um cobrador?

"O que me acaba", dizia o homem, "é que meu pai está mais novo do que eu. Parece um irmão mais moço, parece pai dos meus filhos".

Aí maquinei: será que aquele homem pareceria avó dos seus filhos? Mais um ou dois anos, estaria ele sexagenário? O que alentava era o homem ter a força dos 30 anos. Robusto, carnes firmes e passos serelepes. 


“Envelheci vinte anos em cinco. O sol e a canseira me acabaram. Minha mulher está pior: sol, canseira e filhos.”

Qual o seu sonho? Perguntei ao homem que ficou olhando o reboco da parede, antes de responder. Parecia buscar uma resposta, entre uma falha de cimento e outra.

Meu sonho? Meu sonho é ir durando os tempos, igual essa parede: descascada, rachada, mas durada! 

(Imagem: Pinterest)

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